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Nas ruas do Brás

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 09/10/2019 | 07:30

Pendurado pelos amigos, pescar no rio Tietê; descalço, jogar bola na rua; agarrado à traseira, pegar carona em caminhão. São algumas das artes do garoto Drauzio, no futuro reconhecido como médico, divulgador de ciências e escritor.

‘Nas ruas do Brás’ é um livro das memórias de infância de Drauzio Varella, vivida na década de 1940 (em nasceu em 1942), em São Paulo. Autor do premiado ‘Estação Carandiru’, a respeito do maior presídio do país, implodido no começo deste século, e de ‘Por um fio’, em que trata de pacientes terminais, neste livreto o autor rememora sua vida de neto de imigrantes espanhóis e portugueses no bairro operário, próximo do Centro da capital. A cidade na época contava com 2 milhões de habitantes.

Varella conta como seu avô, órfão de pai, chegou sozinho ao Brasil, com apenas 12 anos de idade; de como trabalhou em fazendas até poder tentar a sorte em São Paulo.

E de como seu pai, viúvo aos 35 anos, com três filhos para criar, trabalhava em dois empregos para poder fazer a prole estudar e passar longe da vida sacrificada dos operários das fábricas.

Mas o que se destaca no livro são as estripulias da garotada, criada na rua e na rua aprendendo a se virar (o que significava defender-se por conta, apanhando e batendo). Magrinho e comprido, Varella participava da ‘vara de pescar humana’ armada pelos garotos às margens do ainda não poluído Tietê: a ribanceira do rio era alta, os meninos – nenhum sabia nadar — davam-se as mãos e se esticavam, um preso pelo braço do outro, até o da ponta poder emborcar uma lata na água e pescar peixinhos prateados.

Vidrado por futebol, ouvia as partidas do seu São Paulo no rádio, que os locutores transformavam em confrontos heroicos.

Pelo rádio acompanhou a sofrida derrota do Brasil na final da Copa de 1950, e pela primeira vez viu homem adulto chorar longe de um enterro.

Varella recorda-se do primeiro filme que assistiu – uma comédia de ‘O Gordo e o Magro’ – e da fascinação que o cinema imprimiu nele pelo resto da vida.

Com o cinema percebeu o que seu pai dizia, de que havia um mundo diferente, maior, longe do seu bairro tão querido.

Ilustrado por Maria Eugênia, com fotos da cidade e outras do arquivo pessoal do escritor, ‘Pelas ruas do Brás’ valoriza-se pela sutileza e humor com que revê não só uma história pessoal como a de tantos outros nascidos em São Paulo ou que adotaram a metrópole como sua cidade.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio.


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