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Nathália Mondo: A tal da pedra

NATHÁLIA MONDO | 19/10/2018 | 07:30

Carlos Drummond de Andrade, em 1951, chegando à casa dos seus 50 anos, escreveu o livro “Claro Enigma”. Boa parte das poesias inseridas lá trata daquilo que o autor nomeou de “madureza”, ou seja, a velhice, uma vez que viver metade de um século, naquela época, era também estar já no final de sua vida. Uma das poesias de que mais gosto nesse livro é “Legado”. PS: Eu, se fosse você, pausava essa crônica e lá corria ler antes de continuar, porque poesia nunca é demais nessas nossas vidas malfadadas.

Neste poema, Drummond se questiona sobre aquilo que ele deixará quando chegar a “noite do sem-fim”. Porém encara esse momento da perspectiva de um cidadão e não de um indivíduo, ou seja, se preocupa com o que fez em prol de seu país e não apenas para benefício de sua família. Drummond se mostra bastante modesto, dizendo não ser ninguém a mais ou diferente dos outros brasileiros; mas brinca consigo mesmo, em um misto de pesar e sátira, ao terminar dizendo: “De tudo quanto foi meu passo caprichoso/na vida, restará, pois o resto se esfuma,/uma pedra que havia em meio do caminho”.

Assim o autor faz uma auto intertextualidade: ele cita seu mais famoso (talvez?) poema: “No meio do caminho”, aquele que todo mundo conhece, que foi obrigado a ler na escola, mas que provavelmente nunca parou efetivamente para discuti-lo, tomando-o por bobo. Entretanto em dias como os nossos, em que a interpretação de texto se faz cada vez mais necessária, paremos um pouquinho para corrigir isso. Drummond foi absurdamente criticado por esta poesia, afinal era cheia de repetições e palavras inadequadas para um texto literário. A isso ele rebateu com destreza: “Se foi repetitivo, então critiquem Olavo Bilac, afinal a poesia da pedra é uma releitura do texto bilaciano ‘Nel mezzo del camin…’, que por sua vez também é cheio de repetições”.

Assim passou a ser criticado, então, por plágio. Ao que rebateu mais uma vez dizendo que criticássemos novamente Bilac, “o príncipe dos poetas brasileiros”, afinal a poesia dele era uma citação direta a Dante, escritor da Divina Comédia. Sendo merecedor das críticas ou não, não só o poema do Drummond, mas os dos dois autores-fonte, tratam do mesmo inesgotável tema: problemas inesperados que afetam nossas vidas e nos colocam em frente a uma terrível escolha.

Seja a perda de uma pessoa amada ou de um emprego, uma desavença com um amigo querido, uma doença, uma situação política calamitosa, ou qual outra pedra for, todos nós passamos por isso. E todos nós temos que escolher nesse momento inglório como agir. Opção 1: sermos estátua e declararmos derrota no meio do caminho. Dois: sublimar, escalar e vencer a pedra. Três: sermos tatus e nos escondermos debaixo dela covardemente. Todavia o que não podemos nunca ser – ou ao menos tentarmos – é a tal da pedra no meio do caminho dos outros.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa

Nathália Mondo


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