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Nathália Mondo: A terra dos meninos pelados

NATHÁLIA MONDO | 27/07/2018 | 05:00

Graciliano é considerado por muitos, ainda hoje, o maior romancista da literatura brasileira. Ao redor dele, gira uma fama de autor austero, sempre carrancudo nas fotos. Muito desse mito vem da linguagem que ele utilizou em boa parte de seus textos: frases curtas, secas, duras, com poucas descrições. São daqueles textos que dizem muito falando pouco; não cansam. Suas personagens também são comumente homens frágeis que se fazem de fortes; homens que sofrem, que apanham, que são presos pela fome, pela cadeia, pela tristeza, pelos seus próprios destinos.

Assim para muitos leitores é novidade o fato do velho Graça ter escrito um livro infantil e diversos contos que seguem a mesma linha. Soa quase como uma incoerência. Mas é verdade. Graciliano passou quase um ano preso durante o Governo Vargas, foi mandado para diversas prisões no país, transportado em navios tumbeiros e adquiriu no cárcere uma doença da qual nunca efetivamente se curou. Da mesma forma como foi preso, sem acusação nenhuma lá no Nordeste, foi solto, sem aviso prévio, mas no Rio de Janeiro.

Lá foi largado sem família, dinheiro, emprego. Com ajuda de amigos conseguiu onde morar e trazer a esposa e as filhas para perto de si. Porém jamais conseguiria de volta seu emprego como prefeito ou diretor de imprensa oficial, ambos ligados ao governo. Desta forma, para sobreviver, Graça começa a publicar contos em diversos jornais cariocas e até internacionais para levantar dinheiro. Daí nascem muitos contos que compõem o livro “Insônia”. Dentro dele, dois são infantis, como “Luciana” e “Minsk”, duas narrativas em que a mesma garota se depara com dois conflitos opostos. No primeiro, Luciana quer crescer e virar gente grande; no segundo, ela é obrigada a fazê-lo a partir de um desastre. Ambos são de uma delicadeza impagável, mesmo com toda a linguagem minimalista do autor.

ARTICULISTA NATHALIA MONDO PROFESSORA DE LITERATURADaí surge “A terra dos meninos pelados”, uma historieta maravilhosa, que ganhou o prêmio de terceiro lugar no concurso da Comissão Nacional de Literatura Infantil do Ministério da Educação – o que foi suficiente para Graça manter sua família no Rio por mais alguns meses. A história trata de Raimundo, um garoto de cabeça careca e com um olho de cada cor, por isso sempre atazanado pelos colegas. Assim ele cria para si um mundo paralelo, Tatipirun, onde é aceito por todos e de onde tira coragem para enfrentar as agruras de uma sociedade preconceituosa. O livro foi escrito em 1937, mas pode ser lido hoje facilmente por crianças de todas as idades.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa


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