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Nathália Mondo: Calçar os sapatos do outro

NATHÁLIA MONDO - redacao@jj.com.br | 15/06/2018 | 04:00

O ditado popular “calçar os sapatos do outro” significa não apenas trilharmos o mesmo caminho que ele, ou seja, viver suas experiências particulares, sua rotina e lidar com as consequências das suas decisões, mas é mais do que isso. Estar com os sapatos do outro é sentir onde aperta o calo dele, onde dói, onde a costura pega, onde folga, onde falta.

O livro “O médico doente”, de Dráuzio Varela podia ter esse ditado como título. Esta obra é mais um relato autobiográfico do autor, que abrange, aproximadamente, 10 dias bem singulares da sua vida: momento em que o conhecido “médico do Fantástico” pegou febre amarela. O livro inicia-se com a volta pra casa, depois de dias viajando pelo Rio Negro, para pesquisar plantas com composições interessantes para a ciência. Dráuzio deita-se, dorme e sonha com uma noite de reposição de energia. Mas não é isso o que ocorre. A doença contraída dias antes começa a se manifestar e a primeira febre e dores nas costas vêm visitá-lo. Sem saber o que tem, se automedica – operação que não devia ser permitida nem para os próprios médicos, uma vez que eles não são as pessoas mais indicadas para se diagnosticar quando são eles os enfermos.

Logo melhor, Dráuzio continua com a rotina, fingindo que tudo estava bem. E só desiste de tentar lutar contra a febre, as dores, a indisposição e a falta de forças quando sua esposa intervém e o interna à força. Ou seja, o médico se mostra não apenas um paciente comum, com as mesmas manias, mas talvez pior: mais teimoso.

No hospital inicia-se a troca de lugar de ação: de médico a paciente. O doutor é quem agora passa a receber olhares de pena, ser obrigado a responder perguntas imprecisas, ter que lidar com visitas inapropriadas, responder coisas sobre seu corpo que nem ele sabe descrever, sofrer com o diagnóstico inconclusivo e encarar o rosto de preocupação dos médicos que demoram dias para saber o que ele tem.

A demora do diagnóstico nos mostra uma falha do nosso sistema de saúde que ainda não foi resolvida: a alta especialidade da nossa educação médica. Os médicos sabem muito sobre o pouco em que se especializaram. Mas nada disso ajuda quando doutores de São Paulo precisam tratar uma doença do Norte, que nenhum deles viu ou estudou. E nem se tivessem… A febre amarela não tem cura, o tratamento é meramente paliativo e é o organismo que precisa se virar, individualmente, com suas próprias armas – quando consegue. Obviamente o final estava anunciado desde o começo. Porém o percurso trilhado, com os sapatos de paciente, é que faz deste relato médico incrível.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa

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