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Nathália Mondo: Ciclo Vicioso

NATHÁLIA MONDO | 24/08/2018 | 05:30

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano foi em homenagem a uma poeta há muito tempo incrível, mas há pouco descoberta pela crítica e pelo público: Hilda Hilst. Sua poesia e sua prosa compõem um cenário marginal, que explora do amor ao sexo, da concretude humana à conexão com os espíritos (com quem ela tentava conversar todo o tempo, diga-se de passagem). Por isso esta Flip, além de ser a primeira das 16 edições do evento a ter mais mulheres do que homens como convidados palestrantes, foi dedicada a assuntos marginais e às opressões em geral.

Uma das palestras a que assisti foi a de Isabela Figueiredo, autora nascida em Moçambique, filha de portugueses migrantes, que pra lá foram na esperança de fazer dinheiro fácil. O seu livro mais aclamado e já publicado aqui no Brasil chama-se “Caderno de Memórias Coloniais” e compõe uma autobiografia, ou uma autoficção sobre os anos em que viveu em África.  Ela – como branca, loira de olhos azuis e colona – nos apresenta, no início do livro, Moçambique como uma colônia portuguesa. Seu pai, figura central da história, possuía uma empresa modesta de elétrica e reparos, cujos empregados eram todos negros.

E, mesmo criança, Isabela já percebia que algo andava fora dos eixos no seu cotidiano na capital moçambicana: as mulheres negras eram rechaçadas pelas brancas, porém constantemente buscadas em surdina pelos colonos; as crianças brancas não podiam brincar com os vizinhos negros; os homens brancos eram sempre os donos e podiam agir com a violência que desejassem para com seus trabalhadores negros, além de várias outras cenas que, para ela, mesmo fruto da classe dominante, pareciam desconcertantes.

Essas situações, narradas pelo olhar de uma garota de 12 anos, são chocantes e importantes descrições do que foi o tardio e tão recente período colonial africano. Pelo fato de sua família ser de classe média-baixa, a sua cor de pele ressoa e ofusca, pois se torna o único motivo do porquê possuía privilégios naquele local e época. Porém a história dá uma guinada excelente e que foge ao lugar comum quando ela nos conta sobre a independência do país, a qual ela não vê acontecer, mas de que escuta falar.

Logo a violência inverte de lado e as cenas narradas por ela passam a ser de mulheres brancas estupradas, famílias brancas tiradas à força de suas casas em chamas e homens brancos perdendo suas vidas nas madrugadas no meio das ruas. Assim ela é retirada do país às pressas com a missão de transmitir aos seus parentes em Portugal uma mensagem: a violência.

Porém ela, quando lá chega, não sabe transmitir o pedido dos pais. Afinal, de qual violência falavam eles? Qual das duas deve ser fruto de condenação? Qual delas seria efetivamente violência e qual uma ação justificada pela História? Logo ela fala das duas. Expõe o ciclo vicioso que não tem fim. Vingança, violência, justiça se confundem para mostrar o caos que causamos quando o preconceito guia nossas ações.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa

Nathália Mondo


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