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Nathália Mondo: Corri para ler

NATHÁLIA MONDO - opiniao@jj.com.br | 04/03/2018 | 21:00

Na semana passada, escrevi aqui sobre o primeiro livro de Fernanda Torres, chamado “Fim”. Hoje, sigo a linha sucessória falando sobre seu recente lançamento: “A glória e seu cortejo de horrores”. Apesar desse “titulozão” em tamanho e força, o início do livro foi daqueles arrastados. As primeiras cinquenta páginas foram quase intragáveis, com frases que queriam parecer poéticas, mas que acabam sendo só mesmo difíceis de ler e bem vazias. A personagem seguia na mesma linha: um ator de renome destronado da fama depois de uma adaptação de Shakespeare que foi o fracasso do século. Nas cenas seguintes, tudo começa a piorar, porque o ditado está sempre certo: “Desgraça nunca vem sozinha”. Ele vai à falência, não consegue mais emprego, tem que fazer um comercial ridículo para pagar o rombo no banco, a mãe fica doente… Gente, coitado!

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Mas foi aí que saquei. A forma tem sempre que se relacionar com o conteúdo. Linguagem enrolada para uma vida desastrosa. Mas a coisa muda de figura assim que Mario começa a lutar contra aquela situação. As cenas ganham velocidade, ele vai se enfiando em diversas roubadas e a linguagem se torna ágil. Nessa saga de Mario em sair do fundo do poço, muitas discussões aparecem, como teatro x televisão, alta cultura x cultura de massa, fidelidade x libertação sexual, família x indivíduo, carreira x amor. Aí a Torres-filha faz o que sabe fazer de melhor: falar sobre a vida de um artista nos seus pormenores, ou seja, aproximando-o do público que o ama. Mario é uma pessoa. Não uma estrela que só faz brilhar. Ele se apaixona, ele erra, ele sofre, ele tem uma família esquisita (como todas), ele tem uma casa, uma rotina e muitas falhas.

Nesse degringolar de sua trajetória, Mario vai se transformando em seus personagens e exagerando sua vida, como se faz com os gestos no teatro e na TV. Ele vira sua criação, meio “O médico e o monstro” e meio “Frankenstein”. E o final… Minha gente! É daqueles de rir para não chorar! As últimas 50 páginas não dá para largar. A autora faz uma sátira da cultura brasileira que me revirou o estômago! Mario, suas personagens e a cultura do nosso país viram um troço só. Através de uma cena que pode fazer muitos se lembrarem de episódio de “Sai de Baixo”, Fernanda Torres expõe nossa pouca educação, nosso mix de culturas e a maior vontade de vencer nessa vida – que talvez seja a melhor característica do povo brasileiro.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa


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