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Nathália Mondo: entrando no mundo dos quadrinhos

NATHÁLIA MONDO - opiniao@jj.com.br | 19/03/2018 | 02:45

Um dos quadrinhos de que mais gosto e que sempre recomendo é “Persépolis”, de Marjane Satrapi, uma autobiografia, composta por uma iraniana, sobre suas experiências com os golpes fundamentalistas e repressivos, em questão de religião e liberdade de expressão, de seu país. Muito desse tema tem se discutido na mídia, nas escolas, e não poderia fugir à literatura. Mas o que esse quadrinho tem de novo é a personagem e a visão que ela dá aos fatos. Primeiro, Satrapi não deixa de contar de sua vida, infância, adolescência, descoberta sexual e amorosa, conflitos familiares, padrões de beleza – que são extras, porém também influenciados pelo sistema governamental que ela tanto critica. A autora não deixa que as guerras separatistas, as bombas e o fundamentalismo ofusquem seus dramas internos e comuns a qualquer garota. Eles apenas se misturam, intensificando seus problemas.

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

E aí entra o segundo ponto interessante do livro: muitos dos problemas pelos quais a personagem passa são causados por ela mesma. Ela não é a vítima martirizada. Ela é uma garota que comete erros ao tentar se descobrir. E paga pelas consequências deles. Nada daquele maniqueísmo tão comum dos livros que retratam cenas de grande opressão, como o Holocausto, a Revolução Russa e as ditaduras no geral. Temos uma visão, sim, de alguém oprimido, mas que não é mártir. Porém aí preciso fazer uma crítica. Marj é normal, mas nem tanto. Ela é bisneta do antigo imperador. Seu pai é engenheiro. Eles têm dinheiro. E só por isso ela conseguiu sobreviver, ao ir morar em Viena quando a opressão ficou pesada demais, e só por isso não foi presa e torturada diversas vezes. Porém esta questão não foi abordada no livro. Assim me soou um tanto hipócrita sua opressão, seus gritos contra o fundamentalismo e sua falta de medo perante os ditadores, porque ela sempre tinha um meio de fuga: pais que pagavam para tirá-la do país, pais que pagavam para tirá-la da cadeia, pais que pagavam a maconha que ela fumava para se desligar dos problemas pessoais por que passava em Viena! Confesso que isso me incomodou. Mas acho que essa é uma das poucas visões oprimidas a que teremos acesso, porque os reais sucumbidos nunca conseguirão se exprimir, por falta de oportunidades, iguais às quais Satrapi teve. Adorei o fato das ilustrações serem em preto e branco, quase que refletindo a incapacidade de Marj se encontrar e se achar no mundo. Ela não conseguia entender quem era: uma iraniana em Viena ou a ocidentalizada no Irã. Tudo era confuso, sem cores, amargo. Gostei também dos traços simplistas, não reprimindo, portanto, a criatividade do leitor.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa


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