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Nathália Mondo: Jout Jout e o Poetinha

NATHÁLIA MONDO | 16/04/2018 | 05:00

Há uma youtuber bastante famosa nos círculos adolescentes chamada Jout Jout, que decidiu criar um quadro em seu canal para analisar letras de música – como se faz com poesia -, mas de uma maneira bem humorada e descontraída. Ela, de vez em quando, dá até umas arriscadas em cantar por si mesma as músicas sem medo de desafinar.

Achei a proposta muito bacana, primeiro porque pressupõe a eterna discussão sobre as letras de música serem poemas ou não. Segundo porque introduz o debate sobre ritmos considerados de alta ou baixa cultura. E terceiro porque aborda a arte de uma forma crítica e acessível.

Um desses vídeos, entretanto, me deixou bastante frustrada. A Jout resolveu falar de Vinícius de Moraes, “aquele menino que a gente admira à beça”, como ela mesma disse. Aí ela mexeu no meu calo. No vídeo, ela analisa uma obra dele chamada “Soneto da Mulher Ideal”, que tem em uma das estrofes os seguintes versos sobre a sua designação de exemplar perfeito do gênero feminino: “[A MULHER]Tem que saber amar / Saber sofrer pelo seu amor / E ser só perdão”.

A Jout achou esse trecho bastante machista e jogou o Poetinha no mesmo balaio que os funkeiros de hoje em dia – os mesmo que fazem apologia ao “estupro música sim, música sim”. Aí eu quase chorei. Chorei pela alma do Vininha se remelexendo no túmulo, pela Jout (porque mesmo assim gosto muito dela) e por todos os historiadores que devem ter enfartado pelo anacronismo. Sim! Anacronismo. Aí é que reside o problema.

Os versos de Vinícius são machistas? Sim, pois dizer que as mulheres devem apenas perdoar, não importando o que o amado faça, sem questionar ou enfrentá-lo, é instigar à submissão do gênero. Mas ignorar que isso veio de um compositor nascido em 1913, de formação estritamente católica, que teve o auge de sua carreira margeando as décadas de 50 a 80 é esquecer que historicamente os versos dele faziam muito sentido pra sua patotinha dessa época.

É triste pensar que as mulheres eram vistas assim há 40 anos, mas é inadmissível aceitar isso hoje. A Jout só pulou a Revolução “Sexo, Drogas e Rock and Roll”, as conquistas da libertação sexual feminina, o anticoncepcional, a discussão de gênero nas escolas, a primeira presidente mulher… Só isso.

Não dá para dizer que é igual. Muito menos quando se conhece um pouco mais da obra dele e se vê que ele tem inúmeras poesias e canções feitas apenas para elogiar as mulheres, e de uma maneira que quase beira a idolatria.

Não dá pra dizer que os versos dele são equiparáveis a “Hoje vai rolar/ Só surubinha de leve/ Só de leve com essas filhas da p*/ Taca a bebida e depois taca a p*/ E abandona na rua”, como filosofou Mc Diguinho.
NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa


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