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Nathália Mondo: Precisamos lembrar

NATHÁLIA MONDO | 05/10/2018 | 07:00

Em tempos em que se questiona a existência ou não do Holocausto, acho bom relembrar. A Literatura não serve propriamente dita como documento histórico, porém é uma ferramenta de auxílio de pesquisa e ajuda a transmitir, de forma mais acessível, alguns eventos do que um tratado historiográfico. Por isso acho importante citar “Maus”, quadrinho de art spielgeman. A HQ foi a primeira a ganhar o famoso prêmio Pullitzer, destinado, até esse momento, apenas à alta literatura de nossa época. Ou seja, essa obra não é pouca bobagem.

Foi escrita com base na memória. Na verdade, não em uma, mas em duas memórias. O autor narra a história de seu pai, um sobrevivente do holocausto nazista (que, sim, aconteceu), pautando-se em diversas entrevistas que fez com ele, as quais gravou para melhor lembrar na hora de escrever. Porém na obra vemos tanto o pai como o filho, ambos personagens de uma história que vai além da Segunda Guerra, dos campos de concentração e da violência. art nos mostra como essa guerra nunca acabou, como a objetificação do homem persiste, como os preconceitos persistem, como o ódio ilógico persiste. E como tudo isso deixa sequelas na vida de pessoas que nem nessa guerra estiveram.

“Maus”, rato em alemão, mostra art, no presente, indo conversar com seu pai, para dele extrair suas memórias sobre a guerra. Logo embarcamos em um trem para o passado e visitamos momentos de fome, de opressão, de fuga, de trabalho, de violência e de morte, os quais art nunca presenciou, já que nasceu nos EUA no pós-guerra. Porém a fala do pai é constantemente entrecortada por fatos do presente, principalmente por cenas de briga entre os dois, afinal Vladek não consegue perdoar art por não ter vivido os horrores da guerra, não o perdoa por art não entender. Sim! Soa absurdo, mas não é. Aquilo que houve de mais importante na vida de um homem não foi vivido por seu filho, que sofre ao tentar entender uma lógica de mundo que, graças a Tupã, não lhe pertence, afinal vivemos em época de relativa paz.

Assim pouco há em comum entre esses dois homens. Por isso brigam. Por isso a violência se faz presente, inclusive dentro de casa. Uma guerra gerando outra. Um ciclo sem fim de mutilações descabidas, não justificadas, que se reproduz em inocentes.
Para os desenhos não chocarem, art se vale de uma estratégia, ilustra as cenas através de um processo de animalização: os judeus são ratos; os alemães, gatos; os americanos, cachorros. Logo tudo soa mais simples, quase infantilizado. Mas não é. É só mais acessível. Inclusive para crianças/adolescentes, que não podem deixar de estudar momentos históricos importantes só porque são difíceis de explicar, violentos ou até inacreditáveis pelas atrocidades que causaram à humanidade. Precisamos lembrar.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa

Nathália Mondo


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