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Nathália Mondo: Preconceito está em todo lugar

NATHÁLIA MONDO | 13/07/2018 | 05:00

Acho que aqui nesta coluna já me referi diversas vezes à coleção Maurício de Sousa Produções e vou fazer isso mais uma vez, porque o último quadrinho que li é bom demais para deixar passar. O objetivo deste novo selo, intitulado MSP, é trazer os tão famosos personagens da Turma da Mônica, porém através do olhar e do traço de outros roteiristas. Assim, a Magali, o Papa Capim, o Chico estão todos lá, mas com um desenho diferente, entretanto ainda facilmente reconhecíveis. O mais legal dessa iniciativa é tocar em temas que os quadrinhos usuais não tocam. Por exemplo, em “Força”, a Mônica enfrenta a separação de seus pais; em “Arvorado”, Chico Bento perde sua avó; e em “Caminhos”, vemos o abandono dos animais através da trajetória sofrida de Bidu. Assim as HQs se tornam mais amplas, para um público também adulto, e apresentam maior sensibilidade.

A última que li não foge à regra. Em “Pele”, quadrinho de Rafael Calça e Jefferson Costa, vemos a figura de Jeremias, único personagem negro de Maurício de Sousa, na sua infância, descobrindo o que é preconceito. Com toda a graça, cores vivas e sutileza, os autores esfregam na nossa cara cenas violentíssimas do cotidiano. Na escola, a professora branca decide atribuir a cada aluno uma profissão que ele deveria pesquisar e depois apresentar para a turma toda, vestido com as roupas do cargo atribuído. Para Jeremias, sobra o pedreiro. Na quadra, ao jogar futebol com os amigos brancos, Jeremias é rebaixado e maltratado, xingado por um dos colegas pela sua cor. Na rua, a caminho de casa, o pai de Jeremias, também negro, é obrigado a passar por uma revista mega violenta e mostrar seus documentos trabalhistas – algo nunca exigido em blitze policiais – para comprovar que era um homem honesto e “de bem”, mesmo carregando consigo seu canudo com planos de arquitetura que entregaria naquele mesmo dia ao seu empregador.

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No ônibus, no horário de pico, algumas mulheres preferem fazer a viagem de pé a se sentar ao lado do jovem negro, sendo esse o único banco disponível. E, para ajudar, apertam suas bolsas contra o corpo instintivamente. Cena a cena, vemos o preconceito que invade todos os espaços, sem salvar nenhum. E vemos a luta dos pais de Jeremias tentando explicar para uma criança de 10 anos que ela é negra e que o mundo ao redor dela é diferente do mundo ao redor dos brancos. Seria exagero essa somatória de cenas? Não. No depoimento dos autores no posfácio do livro, vemos que todas as cenas ali retratadas foram vividas por eles ao longo de sua juventude, pois ambos também são negros. Um deles, inclusive, não sai de casa sem sua carteira de trabalho.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa

Nathália Mondo


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