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Nathália Mondo: São Bernardo, Paulo Honório e Madalena

NATHÁLIA MONDO | 30/11/2018 | 07:30

Em 1934, Graciliano Ramos publicou seu segundo livro, aquele que viria ser a sua obra prima. As primeiras páginas de “São Bernardo” foram escritas na sacristia da igreja de Palmeira dos Índios, cidade em que morou durante parte de sua juventude e de onde virou prefeito praticamente por aclamação pública. Já tendo muitos filhos e sendo constantemente requisitado pelo seu cargo político, o padre permitia que o autor, ateu desde sempre, lá se refugiasse para escrever em paz.
Pena que suas personagens, de nenhum romance ou conto seu, não aproveitaram dessa mesma paz. Seus protagonistas são sempre atormentados por situações que, quase nunca, eles poderiam resolver.
Em “São Bernardo” a situação não é diferente. Essa é uma história de um homem e de uma terra. Unidos por sangue e atados a um mesmo destino. Paulo busca na fazenda que dá nome ao livro sua plenitude: salvando a terra, salvaria a si mesmo.
Nem ele nem a fazenda possuem memória de quem foram. Paulo Honório nunca conheceu seus pais, quando se deu conta de si, já estava abandonado, era pobre, jogado em uma sociedade que exigia dos “homens de verdade” serem fortes, livres e ricos. A fazenda um dia, há muitas décadas, foi próspera, mas não há quase ninguém vivo que se lembre disso, afinal o dono dela, Padilha, a viu definhar sem nada fazer dia a dia. Os dois – indivíduo e propriedade – não sabem quem são, porém têm consciência de que precisam sair daquela situação.
Por meios muito violentos e indignos, Paulo consegue comprar a fazenda e cerca-se de pessoas que poderiam ajudá-lo a melhorar seu ego e a terra. Paga jornalistas para elogiá-lo, tem advogados como amigos próximos sempre a aconselhá-lo, e carrega junto de si um jagunço, a quem trata como cão, para resolver seus problemas e garantir sua segurança. A muito custo, trabalho e corrupção, Paulo vence. Compra máquinas para São Bernardo, cria gado, planta mamona e algodão, manipula as eleições da região e manda matar seu rival. Faz aquilo que aquela sociedade exigia dele: prospera. Os meios usados: os comuns do Brasil de ontem e de sempre.
Mas a saga não está completa. De nada adianta ter construído tudo isso sem ter para quem deixar. Paulo precisa urgentemente de um herdeiro. Logo, precisa se casar. Busca as pretendentes como quem vai ao mercado escolher um produto pela embalagem. As pernas. As pernas tinham que ser bonitas.
Então ele busca Madalena. Aí ele conhece Madalena. Sem esperar, se apaixona por Madalena. E isso não era compatível com o projeto que tinha para si. E nada mais seria igual.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa

Nathália Mondo


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