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Nathália Mondo: Sobre conquistar a Lua

NATHÁLIA MONDO | 02/11/2018 | 07:30

“Luna Clara & Apolo Onze” é um livro pra crianças, de faixa etária próxima aos 12 anos, e é um dos exemplos mais atuais de que a literatura infantil brasileira tem muita coisa boa a oferecer e não pode ser ignorada. Especialmente pelos adultos, que irão formar nossas crianças também escolhendo o que elas vão ler.

O livro é metafórico do início ao fim. Genial em alguns aspectos. Que traz desde informações óbvias, que qualquer criança captará, até comentários e piadas mais complexas, que exigem, portanto, um acompanhamento adulto – de professor ou de família – para que o livro possa ser apreendido como um todo, sem deixar escapar nenhum dos seus maravilhosos detalhes. Por exemplo, um dos focos do enredo é a história de amor entre Luna Clara e Apolo Onze, personagens que dão título ao romance.

Os nomes das personagens, não só dessas como de todas no livro, são metafóricos, ou seja, referem-se não só àqueles seres, mas a informações maiores. No caso de Luna e Apolo, não vemos apenas como um garoto de 13 anos consegue conquistar uma menina, mas como os grandes amores nos levam a grandes conquistas, talvez como a da Lua, feita pela expedição Apolo Onze.

Obviamente a linguagem é óbvia, porque é óbvio que é assim que se fala com criança. O quê? Você está bem, Nathália? Estou sim. A linguagem pode ser óbvia, mas não deixa de ser rica e trabalhada, usando tudo quanto existe de figuras de linguagem, como o pleonasmo, exemplificado pela frase acima, que brota no livro nos momentos exatos, criando a atmosfera de humor e crítica que o permeia todo. O trabalho artístico foi bonito demais, pois mistura sim a linguagem acessível, com a complexidade de uma literatura de qualidade e de um enredo incrivelmente arquitetado. Em “Luna Clara & Apolo Onze” você descobre a multiplicidade de clímax, linearidade narrativa, ironia, crítica social, regras de pontuação, história do mundo, de bandas e de livros, intertextualidade e outros múltiplos aprendizados que são incorporados a uma história incrível.

E não há como não se apaixonar por uma personagem como Aventura, que pelo nome já veio desgraçada a viver perigosamente, sempre no meio de suas irmãs conflitantes: Divina – que só ri – e Odisséia – que só chora. E como resistir a Doravante, o homem que fala rápido porque tem pressa de ser feliz? Ai… é lindo e inteligente! E como Ziraldo mesmo disse na apresentação do livro, dá uma certa invejinha por não ter sido eu a escrevê-lo. Estou feliz pelas crianças que lerão este livro.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa

Nathália Mondo


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