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Nathália Mondo: Tomates

NATHÁLIA MONDO - redacao@jj.com.br | 01/06/2018 | 03:00

Tomates. Vermelho. Amargo. Vida. Amarga. Tomate. Madrasta. Amarga. Partida. Triste. Tomate. Família. Não vejo melhor maneira de descrever esta obra. E que coisa incômoda! Descobri que o tinha “Vermelho Amargo”, de Bartolomeu Campos de Queirós, na prateleira no susto. Estava tentando organizar a fila de livros não lidos – que, por sinal, é impossível de ser organizada já que muda conforme o humor, o período do mês, o tamanho do livro, a tara e a preguiça -, e percebi que “Vermelho amargo” estava na estante. Não me pergunte como ele foi parar ali.

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Foto: Arquivo/Jornal de Jundiaí

Já que havia visto vários blogs nos últimos anos comentando sobre ele, e, também por ele ser fininho, decidi dedicar meu sábado a ele. Peguei o volume de capa dura, que se assemelha realmente à madeira, o que até dificulta seu manuseio. Sentei no sofá e encarei as letras tão vermelhas quanto a capa. E fui embora. Sem conseguir parar até terminar as míseras – porém intensas – 60 páginas.
O livro é mais um conto que uma novela ou romance. Mas tem uma densidade inusitada para tal gênero. É mais lírico que narrativo. E que poesia! Que linguagem! Toda definição de prosa poética se encontra nele.

Ficamos o tempo todo sentamos a uma mesa. De frente para nós, um prato de comida com… Tomates. Zanzando pela cozinha, uma mãe, uma madrasta, uma mulher, não sei… Na cabeça da criança, seu pai, seu irmão, sua liberdade, que, naquele momento, se restringe a nada. Ele nem sequer pode levantar sem comer todos os tomates. O conto trata de uma cena comum: a birra por não querer comer aquilo que nos obrigam quando somos crianças. Ainda mais quando aquilo nos é dado por uma pessoa de quem não gostamos. Birra dupla. Mas a infinidade de interpretações da cena é o que dá vida à obra.

Estar na cabeça da criança e não do adulto é demais, porque o brócolis, a ervilha, o feijão e o tomate podem ter toda uma significação que passa despercebida aos olhos práticos e objetivos de um adulto, que só vê no ato a importância da nutrição.
Uma família. Muitas partidas. Uma nova mãe. Muita tristeza. E muitos… Tomates. Eles compõem toda a metáfora de dor, abandono, partida, saudade, tristeza e substituição que o livro retrata. Lógico que teria que ser um tomate, comida odiada por metade das crianças do mundo, inclusive por aquela que nos narra a história. E quanta tristeza e quantos tomates para uma criança só.

Infelizmente é impossível falar muito sobre esse livro, assim como é impossível falar sobre um poema plenamente. Ele tem que ser lido.
Então, mãos à obra!

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisa


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/nathalia-mondo-tomates/
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