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Nathália Mondo: Tudo tem limite

nathália mondo | 29/06/2018 | 05:00

“Outra volta do parafuso” ou “A volta do parafuso” – mesmo livro, muitos nomes – é um daqueles clássicos que você nunca diz que está lendo pela primeira vez, e sim que está relendo, de tão conhecido e aclamado que é. Acho que por esse motivo cheguei a ele com uma percepção já formada, sabendo o que iria achar. Este é um dos primeiros livros de suspense; ele apresenta o gênero para o mundo e, por consequência, ainda não o tem aprimorado. Porém, boa parte das técnicas depois usadas por grandes autores como Stephen King e Agatha Christie está lá. O livro é mais uma novela que um romance, pela sua pequena extensão, entretanto já consegue criar muito bem o clima de tensão necessário a qualquer história de suspense.

Há uma babá solitária, crianças que parecem boazinhas demais, fantasmas, uma empregada pouco inteligente, um tio que nunca aparece, um mistério no ar sobre a expulsão do menino mais velho da escola e sobre a morte de dois antigos funcionários. E tudo se passa numa mansão gigantesca, cheia de torres e ameias, bem no meio do campo, longe de tudo. Todavia, o que me prendeu de verdade, e o que eu já sabia que seria meu ponto principal de análise desde o começo, foi o foco narrativo. Pelo texto ser escrito em primeira pessoa, seria impossível não desconfiar da narradora.

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É incrível como toda cena de suspense tem sempre dois pontos de vista. Possibilidade 1: há um fantasma por ali mesmo, que ela e todos veem, mas ninguém quer tocar no assunto por ser assustador demais. Possibilidade 2: a narradora é louca e só ela enxerga o que não existe de verdade. Esse clima é demais. Mas tudo tem limite. Achei que muitas cenas soaram repetitivas, óbvias e previsíveis. E muitos mistérios ficaram pendurados sem necessidade.

Contudo, o que vale a pena ser levado em conta mesmo é o cenário social em que o enredo se constrói. Estamos falando da relação entre uma babá pobre, criando e educando duas crianças ricas. Porém, apesar de sua função e maior idade, ela se submete aos jovens o tempo todo, por medo, por necessidade social. O respeito e as opressões a impedem de educar efetivamente as crianças, controlá-las e de descobrir o mistério no final por não poder encará-las e confrontá-las. Senti mais medo pela narradora por conta dos seus patrõezinhos despóticos do que dos fantasmas em si. Incrível como o mundo dos vivos pode ser mais assustador que o dos mortos.

NATHÁLIA MONDO é professora de Língua Portuguesa formada pela USP e leitora faminta de qualquer coisaNathália Mondo


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