Opinião

Nós e o antigo em quarentena


Estes são os resquícios de utilitários de um tempo que não havia outro recurso se não a madeira e o feito à mão: as gamelas. Seu significado carrega o potencial trabalho da mão escrava, além de mostrar madeiras desconhecidas e que não existem mais. São objetos e utensílios que guardam a memória. O tempo e a cera mostram as marcas do que é e quanto foram usadas. Essas histórias me chamam a atenção há mais de cinquenta anos. Por incrível que possa parecer, uma dessas gamelas - a menor - encontrei-a num galinheiro de Itupeva em 1967. Estava disfarçada na mesma cor da terra do galinheiro. Não me esqueço disso: olhei e percebi mimetizada lá e pronta para acabar. Virou essa conservada, ainda hoje. Em 1977 escrevia o resultado dessas pesquisas de longas décadas, registradas e publicadas no livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”:Nas prateleiras das cozinhas eram guardadas as “pinhatas” (panelas) de barro e de ferro, cuias de madeira dos caboclos, potes de cerâmica para o sal, pratos de ágata, copos, potes e litros, como os provenientes das cerâmicas Galavotti e de Luis Bárbaro. Também ficavam na cozinha os guarda-louças, que eram comprados dos marceneiros oficiais numa etapa posterior. Neles eram guardadas as tigelas de louças, as tigelas de café, a “scodela della minestra” (tigela para sopa). Entre os objetos da cozinha, a “fornella” talvez seja o mais curioso e eficiente. Anterior à construção do fogão, era uma corrente de ferro batido com um gancho em uma extremidade, para ser pendurada nas vigas de cobertura, e outros dois ganchos na outra extremidade para pendurar o tacho e ajustar a altura em relação ao fogo. O objeto era guardado pelas famílias, e até 1980 ainda existia em quase todas as casas visitadas. Porém, era a polenta que exigia utensílios de bom desenho. As tábuas, “tagliero” ou “taiero”, eram em formato redondo ou quadrado, com cabo ou sem, de tamanhos diversos em função da quantidade a ser servida. Também havia a “gradella” para assar a polenta no fogo, uma grade de ferro batido, com cabo. Os tachos de diversos tamanhos, chamados de “cagliera” ou “ramina” e, para mexer muito a polenta, compridas colheres de madeira - a “mescola” ou a “mensola”. Isso foi familiar para todo o século XX na formação da família que tinha, nas imigrações, as culturas que se adaptavam e ampliavam de maneira transformadora o país. Baseada nas repetições de formas do fazer popular, neste momento de isolamento social vale a reflexão sobre as coisas velhas e seus significados, para resgatar, limpar, salvar e contar a história, nem que seja no Facebook ou num papel grudado no “hobjeto”. EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista

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