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O Brasil antes de Cabral

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI | 07/08/2019 | 07:30

O descobridor Pedro Álvares é o personagem do título: “1499 – O Brasil antes de Cabral”. O livro, do jornalista Reinaldo José Lopes, é um tratado acessível a respeito dos povos que viveram nestas terras sul-americanas bem antes da chegada dos europeus.

Em texto saboroso e bem-humorado, o autor quer desfazer mitos – como o da Amazônia “intocada pelo homem”, ou de que os indígenas brasileiros sempre viveram em aldeias minúsculas, ou ainda que sua organização social é “simples”. Trata também do território brasileiro como berço do homem americano.

Um homem pré-histórico, por sinal, com traços fisionômicos bem mais próximos aos de humanos da África ou da Oceania do que dos índios da atualidade.

Quanto à Amazônia, evidências científicas mostram que a floresta foi sendo “mexida” pelo homem ao longo dos séculos. Calcula-se em cerca de 80 espécies vegetais domesticadas pela ação humana. O autor fala de imensos territórios ocupados desde a atual Bolívia até a Ilha de Marajó, em que nativos construíram estradas largas, dominaram a navegação fluvial, estabeleceram rotas comerciais, criaram arte de qualidade.

Lopes, jornalista por formação e “arqueólogo de coração”, como um pesquisador o define, escreve de maneira leve e descontraída, sem perder o rigor científico. O livro, agradável e informativo, pode ser lido numa toada só.

O escritor não deixa fios soltos e mostra as diversas teorias a respeito da vinda e desenvolvimento do homem americano, assim como explicita as muitas perguntas ainda sem resposta- mas investigadas por cientistas -acerca da organização social, vida cotidiana e desaparecimento de diversas etnias.

Quanto ao sumiço de povos inteiros, o jornalista dedica capítulo em que trata das infecções bacterianas e virais trazidas pelos europeus, bem como as que por aqui aportaram nos corpos de africanos escravizados.

Que se saiba, exportada da América foi a sífilis, doença sexualmente transmissível levada ao Velho Mundo provavelmente pelos navegadores de Cristóvão Colombo.

Lançado em 2017 pela Harper Collins, o volume é um alento, uma esperança de conversa séria (mas não sisuda nem mal-humorada) de gente grande, sem mistificação nem histeria a respeito de tema científico (em época de terraplanismo, todo cuidado é pouco).

No ano da publicação, Lopes recebeu o Prêmio José Reis, o mais importante voltado à divulgação de ciência em nosso país.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio.

FERNANDO PELLEGRINI BANDINI é professor de Literatura no Ensino Médio


FERNANDO PELLEGRINI BANDINI
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