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O Brasil precisa de um Erasmo

JOSÉ RENATO NALINI | 05/07/2020 | 05:42

Não são muitos os estudantes e mesmo estudiosos que conheçam Erasmo de Roterdão, o holandês que nasceu em 27 de outubro de 1469, filho ilegítimo de um padre chamado Van Geert. Os mais eruditos se lembrarão de sua obra “Elogio da Loucura”. Mas Desiderio Erasmo deve ser recordado por outros talentos. Era um pacificador. Amante da paz. Seria um fervoroso adepto do ecumenismo, não só religioso.

Tinha ojeriza por ideologias belicosas, preconceitos racistas e nacionalistas. Provou-o, ao se opor ao fanatismo religioso de seu tempo. E fanatismo é algo muito presente na sociedade brasileira do ano 2020, não é mesmo?

Revisitado, se sua vida e obra vierem a ser objeto de atenção por parte de uma comunidade erudita, ele assumirá um papel de precursor da unidade dos povos. Vaticinou a União Europeia, visitou toda a Europa e, para ser entendido por todos, só escrevia em latim. O idioma universal à época.

Lecionou em Paris durante quatro anos, foi para a Inglaterra e se tornou amigo de Thomas Moore, hoje santo da Igreja. Volta a Paris em 1500, prossegue na Holanda e Bélgica a estudar grego, ensinando e escrevendo. Recebeu o título de Doutor em Teologia na Universidade de Bolonha, uma das mais respeitadas desde então e até hoje lecionou em Veneza, Pádua, Siena, Roma e Nápoles.

Foi na viagem de retorno à Inglaterra, passando pela Suíça e Alemanha, que escreveu “O Elogio da Loucura”, sua famosa oba editada em Paris em 1511. Empenha-se na primeira edição grega do Novo Testamento, acompanhada de versão latina. Publica em 1518 os Colóquios.

Amigo de Henrique VIII da Inglaterra, foi também amigo e depois adversário de Lutero. Abriu-se ao movimento da Reforma, sem preconceitos, mas permaneceu fiel à Igreja de Roma Por isso é o protótipo do ecumenista.

Chegou a ser ordenado sacerdote agostiniano em 25.4.1492. Mas obteve do Papa Júlio II a dispensa da ordem e foi um peregrino humilde, apesar de muito erudito, por toda a Europa. O Papa Paulo III quis torna-lo Cardeal, mas ele não aceitou. Morreu aos 67 anos em Basileia, na Suíça, em 1536. Modelo de intelectual aberto ao diálogo, respeitando as diferenças, teria muito a ensinar para o Brasil de nossos dias.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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