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O Coringa

FABIO JACYNTHO SORGE | 15/10/2019 | 07:30

No último sábado assisti ao filme do Coringa. A grande repercussão e impacto causados pelo longa, realmente são merecidos. O filme tem diversas qualidades e consegue captar, como poucos, o espírito de nossa época.

Nos últimos anos, tivemos uma verdadeira invasão dos super-heróis no cinema, com um calendário concatenado e obras com interligações e continuidade entre si.

A Marvel, editora dona dos Vingadores, Homem de Ferro, Homem Aranha, entre outros, faz um trabalho muito bom ao lançar, de modo ordenado, filmes sobre os seus inúmeros personagens, inclusive coadjuvantes.

Já a DC, dona do Batman, Superman e Liga da Justiça, ainda patina em seus lançamentos cinematográficos, colecionando diversos fracassos, com a honrosa exceção dos filmes da Mulher Maravilha.

De toda a forma, os roteiros dos filmes de super-heróis ainda são muito distantes e fantasiosos e deixam de tocar uma boa parte do público. or outro lado, muitos críticos, ainda ‘torcem’ o nariz para esse tipo de material, considerando-os uma ‘segunda’ divisão do cinema.

De toda a forma, o fato é que alguns desses filmes transcendem o gênero e se tornam verdadeiras obras de arte, com uma mensagem poderosa sobre determinado assunto.

Foi assim, com ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’, em que tivemos a excelente caracterização do Coringa que valeu um Oscar a Heath Ledger, que transformou o personagem na encarnação de uma indiferença maligna assustadora.

Também foi isso que ocorreu em ‘Logan’, quando Hugh Jackman trouxe um herói envelhecido e perto do fim.

O ‘Coringa’ de Joaquin Phoenix segue nessa mesma linha. A história que se passa nos anos 1980, lembra muito um filme de Martin Scorsese, com um ambiente opressivo e pessimista.

Nesse cenário, Artur Fleck tenta a vida como comediante, sofrendo de problemas mentais, com uma mãe doente e trabalhando em subempregos. Ele é fã de Murray Franklin (personagem de Robert De Niro), apresentador de um talk show de comédia.

Chama a atenção o fato de que em todas as interações que Arthur participa, ele sempre é tratado com descaso, deboche ou violência e é tido como ‘esquisito’ ou como freak (uma aberração) pelos outros.

Além disso, há uma enorme carga de agressividade e ódio por todo o longa que capta perfeitamente o espírito de nosso tempo. Nessas condições, não é difícil imaginar porque surge o Coringa, como uma ‘resposta’ de violência do até então frágil aprendiz de comediante.

Talvez, o melhor aspecto do filme seja que nele, como na vida, não existem heróis e ou bandidos, mas apenas um ambiente cinza, porque onde caminham os personagens.

Merece destaque, a formidável atuação de Joaquin Phoenix como o Coringa, em especial por conseguir trazer uma risada ‘dolorosa’ ao personagem e por trazer a ele uma fragilidade incomum.

Enfim, sem grandes batalhas com alienígenas que tentam conquistar o mundo, mas com o singelo retrato da queda de alguém, se fez um dos melhores filmes de super-herói.

FABIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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