Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

O Correio Sul, de Saint-Exupéry

FERNANDO BANDINI | 20/05/2020 | 05:22

Está a fim de escapar do nosso imenso manicômio? De preferência, voando pelos céus, próximo das nuvens e o mais longe possível da piração doentia dos negacionistas? Se está difícil, com voos cancelados e aeroportos desertos, o jeito é voltar-se para as páginas de um escritor talentoso: Antoine de Saint-Exupéry, autor do celebrado “O pequeno príncipe”. Mas não é do príncipe que percorre planetas que vou tratar, e sim do “Correio Sul”, o primeiro romance do autor.

O piloto de aviação precedeu o escritor. E ambos, aviador o autor, conviveram a partir de 1929, quando Saint-Exupéry publicou o “Correio Sul”. O piloto passava muito tempo na fortificação francesa de Cabo Judy, no Marrocos, na espera da escala de voos para o Senegal ou de volta para a Espanha e França. Nesses longos intervalos entre um voo e outro nasceu o livro.

O romance trata de Jacques Bernis, um piloto da companhia de aviação Aéropostale, empresa responsável por levar malotes de correspondência da França para o norte da África, e de lá trazê-los para a América do Sul. Época de pioneirismo da aviação, em que as aeronaves voavam com poucos instrumentos (a bússola foi por muito tempo a única companheira), em que não havia aeroportos mas campos de pouso improvisados (muitas vezes, o areal do deserto). Um período em que o mais comum não era os pilotos perguntarem “se” sofreriam alguma pane, mas “quando” ela ocorreria.

Em “Correio Sul”, Bernis, o ensimesmado protagonista do romance, vive uma história de amor com Geneviève, sua amiga desde a infância. Geneviève casa-se com Herlin, com quem tem um filho. Mas a relação desanda e ela procura refúgio nos braços do amigo de sempre. No entrecorrer dessa história, há referências aos trajetos aéreos, aos roteiros que passavam pelo sul da França, atravessavam a Espanha e o Mediterrâneo para pousarem em solo africano.

Quem quiser conhecer mais sobre esse período, e a respeito da passagem e (possível) permanência do escritor no Brasil pode acessar pela internet o documentário “De Saint-Exupéry a Zeperri”. O vídeo trata de histórias do escritor no campo de pouso do Campeche, em Florianópolis, na década de 1930. No site da AMAB (Associação e Memória da Aéropostale no Brasil) há muitas informações desse empreendimento pioneiro.

Saint-Exupéry morreu em acidente aéreo, em 1944, em uma missão de reconhecimento nas águas do Mediterrâneo.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio.


Leia mais sobre |
Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/o-correio-sul-de-saint-exupery/
Desenvolvido por CIJUN