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O espírito de Natal

GUARACI ALVARENGA | 13/12/2019 | 07:30

Naquela grande cidade, próspera e orgulhosa, ergue-se, num bairro elegante, região de jardins, uma majestosa Igreja, muito linda, de duas torres altas. Suas torres, como se fossem duas mãos levantadas para o céu, anunciam o símbolo clemente da submissão à vontade divina.

A rica comunidade cristã, que ali entoa cantos e rezas para Deus, mais o fazem, em agradecer, do que pedir os benefícios espirituais da graça celestial. Foi nesta época de festejos natalinos, que uma luz extraordinária, como raio solar, irradiou meu espírito limitado e tocou no escuro refugio da alma, onde pulsava um coração seco.

Foi anunciada pelo santo templo, na véspera do Natal, a presença de um grande pregador messiânico. Orador famoso pelo seu estilo familiar e bastante coloquial, em falar sobre o Evangelho de Cristo.

A expectativa era muito grande. Quem de nós, ungidos pela bênção da vida, não aspira se aproximar e se tornar intimo de Jesus. Sua mensagem estaria bem próxima de nossa pobre compreensão.

Quando as luzes coloridas da cidade enfeitada se confundiam com o brilho das estrelas, a iluminada Igreja abraçava incontáveis fiéis.

O templo sagrado acolhia um público respeitável e admirável. No místico ambiente ouvia-se uma delicada música, que parecia regida pelos anjos celestiais. Um suave clima de forte adoração santa fervilhava no templo.

O venerável pregador se atrasou em alguns ansiosos minutos da hora marcada. Ao iniciar a palestra, pediu desculpas pela pequena demora. Mas se justificou, em boa razão, seu atraso.

Referiu-se que a caminho da Igreja, quando estacionava seu carro, encontrou um casal humilde, pedindo abrigo. O casal acabara de chegar à cidade. O homem apoiava em seus braços uma meiga mulher grávida.

Cansados e famintos, desejavam apenas um lugar para pernoitar e aí, seguir o destino a ser cumprido.

Pensou em ajudá-los.

Antes de iniciar a fala sobre o Evangelho, pediu aos presentes, por saber gente abastada, proprietária de mansões e carrões, e dedicada às coisas de Deus, se alguém pudesse acolher as pobres pessoas. Por certo haveria um canto, uma edícula, um quartinho nos fundos, numa das finas residências, onde pudessem passar a noite e depois seguir seu destino.

Um insensível silêncio se fez ouvir por todo o sagrado recinto. Muitos até baixavam a cabeça e desviavam os seus olhares do pregador. Outros cerravam os olhos, simulando como se estivessem em preces. Lá no fundo, perto da suntuosa porta de entrada da Casa de Deus, uma pobre senhora, timidamente, levantou uma mão.

Com a voz trêmula, dirigiu-se ao orador: _ Meu senhor, na minha modesta casa tem apenas um quarto, onde durmo com meus dois pequenos filhos. Penso que estendendo um cobertor como cortina, no meio do quarto, eu possa oferecer parte dele, para o casal necessitado.

O orador, então percorreu seu olhar umedecido por toda a platéia silenciosa. Lágrimas furtivas escapavam de seus olhos. Contemplou a todos e revelou o que tinha de dizer, naquela noite, sobre o espírito de Natal. Abençoada senhora, você acaba de dar abrigo, em seu coração, a José, Maria e Jesus.

GUARACI ALVARENGA é advogado. E- mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br


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