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O exemplo do Mercosul

FABIO JACYNTHO SORGE | 19/05/2020 | 05:00

Na última sexta-feira, o ministro da Saúde, Nelson Teich pediu demissão do cargo, tendo permanecido menos de um mês à frente da pasta. O ponto da discórdia foi, mais uma vez, o uso da cloroquina, medicamento apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro, mas não endossado pelo agora ex-ministro e nem pela comunidade médica.

De toda a forma, é ruim para o país a saída de um segundo ministro da Saúde em tão pouco tempo. Enfrentamos, além de uma grave pandemia, uma dificuldade crônica na escolha da estratégia a ser adotada perante o problema. Na verdade, o presidente defende o uso da cloroquina, bem como o isolamento vertical e a reabertura do comércio. Porém, não consegue achar um auxiliar direto que pense da mesma forma. Daí temos uma situação constrangedora como a da semana passada, em que foram liberadas as academias, os salões de beleza e as barbearias por decreto presidencial, sem que o ministro da Saúde sequer fosse informado.

Neste ponto, o mais importante é trazer racionalidade e ciência ao debate. Quem está tendo os melhores resultados na contenção da covid-19? O que estão fazendo esses países?

Nossos vizinhos do Mercosul, Argentina, Uruguai e Paraguai, excluindo a Venezuela, vêm tendo resultados muito mais eficientes no combate à disseminação do vírus do que nós. Para se ter uma ideia, a Argentina tem 8.055 infectados e 373 mortes, para uma população de 45 milhões de pessoas. O Paraguai tem 786 infectados e 11 mortes, para uma população de 7 milhões de pessoas. O Uruguai tem 734 infectados, 20 mortes, para uma população de 3,5 milhões de pessoas. E o Brasil tem 241.000 infectados e 16.118 mortes, para uma população de 210 milhões de pessoas.

Para que seja feita uma comparação justa, não se deve usar números absolutos, já que as diferenças populacionais são grandes. Assim, uma comparação com os estados brasileiros mostra a gritante diferença. São Paulo, por exemplo, tem 44 milhões de habitantes, com 58.247 infectados e 4.501 mortos. Em comparação com a Argentina, que tem quase a mesma população, o estado tem 50.000 mais infectados e 4.200 mais mortes. O Rio de Janeiro tem população semelhante ao Paraguai, com 6,3 milhões de habitantes, mas 21.000 mais infectados e 2.700 mais mortes.
A que se deve tudo isso? A Argentina, o Paraguai e o Uruguai tiveram uma estratégia unificada para o combate da crise, com os seus mandatários adotando a quarentena e a levando a sério, e também não cederam à pressão de entidades de classe e grupos empresarias para reativar a economia antes do tempo.
Estão colhendo os resultados, enquanto o Brasil não sabe para onde vai, perdido entre as divergências e disputas políticas que nos dividem. O exemplo do Mercosul está aí, para quem quiser ver.

FABIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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