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O início

GUARACI ALVARENGA | 08/11/2019 | 07:30

Estas denúncias de tanta gente envolvida em corrupção lembrou-me um fato longevo ocorrido, contado por um grande amigo jundiaiense. A sua vida profissional de fiscal foi cercada de tentações, mas dela saiu ileso, chegando à aposentadoria com dignidade, marcada por uma honestidade ímpar.

Trabalhou muitos anos numa cidade do interior. Teve um companheiro de trabalho, parceiro do dia a dia, funcionário exemplar, pai de família responsável, a quem admirava pela conduta séria e honesta. Por força do emprego público, o amigo foi transferido para São Paulo, onde completou seu tempo de serviço.

Durante os anos prestados na Capital, numa oportunidade, foi chamado pelo seu chefe para uma missão bastante delicada. Havia fortes suspeitas, que aquele companheiro do interior, estava “comendo bola”, facilitando, afrouxando, no desempenhar de fiscalização de sua função pública.

Naquela época ainda não se utilizavam todos estes instrumentos modernos de investigação, como a interceptação telefônica, a escuta ambiental, a ação controlada e, especialmente, a delação premiada, tudo com o controle judicial e investigação do Ministério Público.

De início, não quis acreditar, pois conhecia a honestidade e os propósitos de trabalho do seu amigo.

Percebeu, entretanto, com o passar dos dias, que as suspeitas que pesavam sobre seu companheiro, eram verdadeiras.

A amizade antiga lhe permitiu uma conversa íntima, a sós. O suspeito fiscal começou a desabafar. Tudo começou por um caso insignificante. Ao fiscalizar os livros contábeis de uma empresa, pode constatar sonegação de impostos. Notificou o proprietário que, ao sair, deixou sobre a mesa um pacotinho, embalado no papel de jornal. Estranho comportamento. Pegou o pacotinho, abriu-o e, para sua surpresa, era um pouco de dinheiro enrolado. Pensou. Suborno? Guardou o dinheiro na gaveta da escrivaninha, não lhe pertencia e nem queria tê-lo desta forma.

Novos encontros e novos pacotinhos. O notificado abusava de sua paciência e de sua honestidade. Na gaveta, vários pacotinhos a serem devolvidos. Certa vez sua esposa telefonou. Contas de energia elétrica e água a serem pagas. Pegou o talão de cheques. Viu os malditos pacotinhos de dinheiro. Porque não usar deste dinheiro e repô-lo, quando da devolução? Assim procedeu.

Novo telefonema da mulher, as compras no mercado. Desta vez não titubeou, usou novamente o dinheiro do pacotinho. Entretanto, as visitas do notificado foram se rareando e os pacotinhos de dinheiro, por sua vez escasseando.

Entretanto acostumou-se a trabalhar com o dinheiro alheio. Tornara-se hábito. A quantia a ser devolvida ao sonegador, já era de um valor, que a restituição lhe doía no bolso. Novas contas teriam que ser pagas, com seu próprio dinheiro.

Deixou os princípios de lado. Esqueceu a ética profissional e a honestidade. Tomou a iniciativa. Telefonou para o notificado: “Como é, não vai passar por aqui?”

GUARACI ALVARENGA é advogado. E- mail: guaraci.alvarenga@yahoo.com.br


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