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O inimigo da onça

JOSÉ RENATO NALINI | 17/10/2019 | 07:30

Havia um personagem que todas as semanas aparecia na revista ‘Cruzeiro’, que era ‘o amigo da onça’. Era um sujeitinho esperto, que sempre colocava as pessoas em situações constrangedoras ou ridículas. E ele sempre se ‘saía bem’.

Com a extinção do ‘Cruzeiro’, que teve o mesmo fim de ‘Manchete’ e ‘Realidade’, o personagem também desapareceu. Era uma criação de Péricles Andrade Maranhão (1924-1961), e publicada pela primeira vez em 1943.

O personagem surgiu a partir de um relato anedótico. Dois amigos conversando sobre o que um deles faria se surgisse uma onça. A resposta: Eu a mataria com uma espingarda. E se não tivesse espingarda? Mataria com um pedaço de pau. E se não tivesse o pedaço de pau? Subiria numa árvore. E se não houvesse árvore? Sairia correndo. E se ficasse paralisado de medo? Aí o inquirido pergunta: “Você é meu amigo ou amigo da onça”? Tudo isso para dizer que onça é um animal nativo de nossas florestas, o equivalente à pantera, ao tigre ou mesmo ao leão, felinos de outros continentes, mas encontra-se em franca extinção.

A derrubada da floresta sacrifica o habitat desse magnífico animal. Ele também foi muito combatido pela caça.

Há quem se vanglorie de ter abatido dezenas de exemplares. Acuado pela falta de mata e de pequenos animais, dos quais a onça é predadora, às vezes se aproxima de fazendas e ataca bezerros. E então é implacavelmente perseguido pelos prejudicados.

Por esse motivo, os amigos da natureza promovem na capital paulista uma exposição de rua, idêntica àquela que já colocou vacas, rinocerontes e outros animais em logradouros públicos, agora composta de 90 onças pintadas e estilizadas por artistas plásticos. É uma forma de chamar a tenção da sociedade para o desaparecimento desse belíssimo animal.

O Onça-fari, um dos promotores da mostra, a espécie é mais do que vulnerável e na Mata-Atlântica existem menos de 300 indivíduos em toda a sua extensão. As crianças do futuro só terão notícia de que a onça existiu através de fotos e gravuras, assim como hoje ocorre com os dinossauros e toda a fauna que a sanha humana, o único animal racional, conseguiu destruir.

Depois do desaparecimento do ‘amigo da onça’, restaram no Brasil apenas os ‘inimigos da onça’.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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