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O preconceito que divide

Fábio Sorge | 19/11/2019 | 07:30

É muito triste presenciar o que o preconceito faz com a sociedade, a família e as amizades. Como um ácido, ele corrói as relações entre as pessoas, cria um muro de ódio e rancor.

Digo isso, porque em razão das minhas atividades como Defensor Público, participei de uma audiência de custódia em que pai agrediu a própria filha, porque não aceitava a opção sexual dela.

O indiciado, paraibano, já perto dos 50 (cinquenta) anos, réu primário, com emprego fixo há mais de 20 (vinte) anos, partiu para cima da filha, mulher feita, com mais de vinte anos, porque ela levou uma namorada para a casa da família.

A Polícia Militar foi chamada ao local e no momento em que as coisas pareciam mais calmas, ele tentou agredir novamente a filha, tendo de ser contido pelos Policiais e nesse momento teria dito que “essa raça tem que morrer tudo, não aceito homossexual, sou da Paraíba, não aceito, vou matar ela”.

Na audiência, ao longo das perguntas que lhes eram feitas, ficou evidente que o indiciado gostava da filha, porém, não conseguia aceitar a opção dela e partiu para a violência em razão disso. Isso ficou claro, quando lhe foi dito que se ele não concordava com a opção da filha, deveria pedir para que ela saísse de casa, mas não poderia agredi-la e nem resolver as coisas na base da pancada. Nesse momento, ele disse que não queria expulsar a filha de casa e que a amava, tendo começado a chorar.

Foi de fato triste ver aquele homem, pois ele não parecia ser uma pessoa ruim ou malvada, mas estava perdendo a sua filha pelos seus próprios preconceitos.

Me indago quantas famílias já passaram ou passam por essa situação e o quanto ainda precisamos evoluir no respeito as opções pessoais de cada um, especialmente no campo da sexualidade.

O magistrado que presidia a audiência foi extremamente ponderado ao explicar para aquele indiciado que ele tinha duas escolhas pela frente. Ou aceitava a filha com a opção sexual que ela havia feito e que certamente não irá mudar e mantinha a convivência com ela, ou não aceitava a opção e perderia o contato com a filha.

Não sei ainda qual será a decisão dele, mas para mim ficou uma vez mais evidente o que o preconceito faz com as pessoas, ele divide, e espalha o ódio e a violência.

E é triste perceber que ainda temos um longo caminho para nos livrarmos dessa praga que acompanha o ser humano desde o início dos tempos. A lógica do nós contra eles, da minha tribo contra a tribo alheia, sendo que só eu e os que são parecidos comigo é que seriamos pessoas de bem, leva a agressões, ódio e destruição.

É muito triste presenciar um pai agredir uma filha por preconceito, isso precisa acabar. É preciso que tenhamos uma cultura tolerância ao outro, com a assimilação da ideia de que a sociedade é diversificada e todos e todas, por mais diferentes que sejam, merecem respeito.

FÁBIO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí

Foto: Rui Carlos/Jornal de Jundiaí


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