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O tempo nos desafia

DOM VICENTE COSTA | 05/07/2020 | 05:45

“Em tudo dai graças” ao Senhor
(1Ts 5,18)

Queridos leitores e leitoras: é bem provável que todos nós, em algum momento, já tenhamos refletido sobre o tempo. O tempo sempre foi um tema frequente para os grandes filósofos pensadores e até para os cidadãos mais simples da vida urbana ou rural.

De fato, o tempo inspira diversas reflexões e interpretações. O grande autor, Guimarães Rosa, escreveu no seu conto, O Espelho: “Ah tempo, o mágico de todas as nossas traições” Nossos pais, avós e bisavós sempre disseram algo sobre a preciosidade do tempo. Sendo assim, façamos uma reflexão sobre três momentos decisivos e profundamente importantes do tempo, que são o passado, o futuro e o presente.

O passado pode ser vivido como uma grande experiência para o aprimoramento da nossa história, pois relembrando os acontecimentos e circunstâncias do passado, entre erros e acertos, podemos aprender mais. É tão bonita a atitude de Jesus que olha para os pecadores e absolve o passado deles, devolvendo a dignidade para cada um e oferecendo uma vida nova para todos. Foi assim com Zaqueu, com a Samaritana, com os leprosos, cegos, coxos, com a mulher adúltera acusada por um grupo raivoso querendo apedrejá-la em praça pública.

Jesus olha serenamente, conhecendo o passado de todos e diz: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8,7). O passado pode nos ajudar a olhar com esperança para a frente, pois, se somente vivermos apegados às coisas do passado, podemos sofrer uma profunda depressão. Para que o passado não nos deprima e não bloqueie a nossa criatividade, é necessário humildade para reconhecer os erros e os acertos, como também maturidade para aprender do passado, sem julgar ou condenar quem quer que seja, nem aos outros e nem a nós mesmos.

E o futuro? Mas, o futuro ainda não chegou. A sabedoria popular nos diz: “O futuro a Deus pertence”. E é verdade. Mesmo que o futuro pertença aos desígnios de Deus, cabe a nós termos projetos e ideais bem vivos no coração. Desde o começo da segunda quinzena de março que estamos em “quarentena” por conta da pandemia. Mas, neste tempo, devemos pensar no futuro e na esperança de que tempos novos certamente virão. Uma pessoa livre não fica presa no passado, mas, também não tem medo do futuro.

O passado já foi. O futuro não chegou. E o que temos então? Temos o presente. A palavra já é eloquente por si mesma. O presente, o aqui e o agora, é um dom, é uma graça que não pode ser desperdiçada. Cada segundo é um presente na composição da nossa história.

Precisamos viver este aqui e agora com a certeza de que ele não voltará mais. Seria tão bom para o mundo e para a humanidade que mais pessoas optassem pelo hoje, pelo agora, e neste instante amar mais, crer mais, relevar mais, compreender mais, perdoar mais, ajudar mais, solidarizar-se mais, cuidar mais, enfim, mais e mais optar por fazer o bem.

Aí sim, poderemos evitar que o passado nos deprima, que o futuro nos torne ansiosos e que o presente nos estresse. E poderemos viver cada “agora” aprendendo com o passado, sonhando com o futuro e bendizendo o presente!

 

DOM VICENTE COSTA é bispo diocesano.


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