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O tempo passa

EGINALDO MARCOS HONORIO | 02/08/2019 | 07:30

Sim e tão rápido que quando nos damos conta, somos acometidos pelo espanto.
A minha estreia neste espaço deu-se no dia 08 de dezembro de 2017 e, com facilidade e frequência sou abordado por leitores, invariavelmente, bastante educados comentam sobre as matérias e, no mais das vezes – não bastasse o envaidecimento – alguns pronunciamentos levam-me às lágrimas, pela emoção e sinceridade com que a mim dirigidas.

Nessa mesma linha, recebo homenagens pela, sem falsa modéstia, coragem em tocar nos assuntos relacionados as questões raciais que, apesar dos inescondíveis atos de discriminação e racismo, ocupamlugar elevado no quesito tabu.

São alarmantes e preocupantes os atos praticados contra a Comunidade Negra, com relevância ao “silêncio dos bondosos” os manifestos dos que insistem em alegar que não existe diferença, na medida da afirmação de que todos somos iguais em direitos e obrigações, o que, não passa de norma constitucional programática e de recomendação de conduta, tanto na Constituição Federal, se confessa que não desenvolve politica pública direcionada a diminuição das desigualdades, da erradicação da pobreza e a promoção do combate ao preconceito de origem, raça, cor, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação.(Art.3º).

Referido comando constitucional, lamentavelmente não é cumprido, eis que, apesar dos avanços, os resultados são muito – mas muito – tímidos e só os que tem o “lugar de fala” sabem e podem avaliar o que digo.

O Ministro do STF, Ayres Brito, chegou a afirmar que “no Brasil se discrimina por tudo”, discrimina, porque é gordo, magro, alto, baixo, homem, mulher, e por ai vai e, em sua forma agravada, aos seres humanos de pele escura, que eram tidos até “sem alma”.

Outro absurdo diz respeito aos maldosos que se apropriaram da condição, a exemplo dos encontrados nos concursos públicos de âmbito municipal Local, a partir da entrega da Lei (5.745/2002) que garantia percentual aos que se declararem afrodescendentes e, por terem um tetravô, por exemplo, negro, se declaram descendentes apesar da pele clara e, com isso, garantir acesso ao serviço público, em detrimento dos destinatários da norma, mais especificamente, os de pele escura.

Como disse em outras oportunidades e aqui reitero, o tempo passa, mas as marcas deixadas nos 388 anos de escravidão e violência desumana praticada contra os negros, seus reflexos ainda são muito fortes e frequentes, ante ao curto espaço de suposta libertação(131 anos), que só produzirá resultados positivos com a implementação de educação de bom nível, verdadeira e equilibrada.

Darcy Ribeiro disse: “O Brasil, último pais a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade e descaso.”

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – Email: eginaldo.honorio@gmail.com


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