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Olhares e corações nocivos

Maria Cristina Castilho de Andrade | 14/11/2019 | 06:00

A mãe postou que a menina, ‘sem meias palavras’, lhe perguntou o que ela achava que as pessoas brancas pensavam quando olhavam para quem tem a sua cor e a do irmão. Doeu-me fundo esse questionamento, mal entrou na adolescência. Talvez, quando criança, em meio ao ‘faz-de-conta’, não se importasse tanto.

Ela e o irmão foram concebidos no coração da mãe e do pai. Ao chegarem, se tornaram alegria. Saber que se entrelaçaram à família fez um bem imenso. Descendência de alma que pulsa por eles.

Na oportunidade, a mãe cita artigo da filósofa Djamila Ribeiro, na Folha de São Paulo: ‘A solidão institucional’. Djamila comenta sobre as mulheres negras em trabalhos de faxineira ou servente, chamadas de ‘tias da limpeza’, que não são tratadas como seres humanos com histórias, significados, aprendizados… Testemunha como é triste, no lugar em que você é a única pessoa negra, não perceber um olhar de acolhimento quando passa por situações discriminatórias.

Não é delírio da menina: já constata as feridas que se abrem em suas entranhas, através de palavras de desprezo e de olhares que machucam. Como afirmou o escritor moçambicano Mia Couto: “No fundo, o grande crime do racismo é que anula, em nome da raça, o indivíduo”.

Que faz o branco se sentir superior ao afrodescendentes, aos indígenas, em vez de uma atitude reparadora por uma história que permanece de chagas abertas pela escravidão? Em que se baseia para se colocar em pedestal de superioridade? Respalda-se em acontecimentos do passado, entre a casa grande e a senzala; entre a mulher para ser preservada, como esposa e filha, e as que eram obrigadas, por sua dependência, a saciarem as taras de seus senhores? Por que esse prazer em se utilizar da maldade para reduzir o outro?

No Antigo Testamento, o profeta Jeremias (17, 9) afirma: “Nada mais ardiloso e irremediavelmente mau que o coração”. O Evangelista Marcos (7, 15.21) relata o que falou Jesus Cristo: “Nada há fora do homem que, entrando nele o possa manchar; mas o que sai do homem, isso é o que mancha o homem. (…) Porque é do interior dos homens que procedem aos maus pensamentos…” Exorcizar o coração é possível, é uma escolha.
Não consola e não impede o sofrimento pelo preconceito, contudo aquilo que alguém pensa ao olhar o outro traduz se o observador carrega em si veneno ou não.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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