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‘Os anos em que vivemos em perigo’

EDUARDO CARLOS PEREIRA | 27/07/2019 | 07:30

Com esse título, a exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) instiga e faz uma necessária reflexão sobre os duros momentos que passamos nesse período de chumbo. 1968 foi o ano das transformações no mundo e não teve nada similar no século XX. Um período que precisa ser estudado porque foi ali a origem dos tempos modernos, de uma revolução na música, no cinema, nas artes e no comportamento.

É uma exposição que decisivamente seria importante entrar no calendário das escolas públicas.
Com a edição do livro de mesmo nome, o curador do MAM, Marcos Moraes, fez a edição com cuidado acadêmico na abordagem do tema e das relações entre as obras com seu momento. Todas elas manifestam a liberdade que se queria em um momento de pesada restrição do ato institucional número 5 e em plena repressão a todas as manifestações da cultura.

A censura, as prisões e mortes de estudantes nos conflitos de rua são mostrados em metáforas, mas com muita potência da linguagem pop que a maioria das obras usa. Eram tempos tão complicados e ameaçadores que os artistas já pensavam com o filtro da censura, nada escapava.

Assim a metáfora foi a ferramenta que permitiu essas expressões de protesto. Zuenir Ventura no livro “1968: o ano que não acabou” compartilha da mesma opinião. Os jovens anônimos foram os grandes responsáveis pelo que chamou de revolução de 68.

Em Jundiaí, a União paulista dos estudantes secundários foi um aglutinador dos jovens artistas e dos jovens intelectuais, quase todos estudantes do GEVA (Ginásio Estadual de Vila Arens).

Talvez o mais bombástico foi o grupo de vanguarda que já conhecia as linguagens modernas e fizeram suas obras contemporâneas, apresentaram ostensivamente ao salão acadêmico do Rui Barbosa. Óbvio que não foram aceitos, mas nunca mais as artes seriam iguais.

Eu, Juçara, João Borin e outros dois artistas que não me recordo fizemos obras provocantes como uma escultura chamada “posição forçada” que era uma mão com os dedos engessados agressivamente protestando contra a ditadura.

A encíclica “Humane Vitae” do Papa Paulo VI (julho de 1968) condenava posturas libertadores da pratica do sexo e proibia os meios artificiais de contracepção, o uso de pílulas anticoncepcionais e esterilização – mesmo que reversível.

Minha resposta para isso foi uma enorme santa de pernas abertas parindo centenas de anjos, o que evidentemente não seria aceito no provinciano salão acadêmico de Jundiaí.

Esses trabalhos foram destruídos e apenas o Borin tem uma obra que fala discretamente sobre as relações do Brasil e Estados Unidos no acordo MEC/USAID. Essas notícias estavam em jornais de 68 e podem ser recuperadas.

Absolutamente não se encerram nesse artigo.

EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista, autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”. Foi presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Jundiaí (Compac), de 2008 a 2011, e conselheiro do Compac, de 2014 a 2016. É membro do Icomos – Conselho Internacional de Monumentos e Sítios.


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