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Os “homens do presidente”

GLAUCO GUMERATO RAMOS | 21/01/2020 | 07:30

Alguns assessores de Bolsonaro se superam ao revelar o conteúdo ideológico que marca o inconsciente coletivo do governo federal. São várias as declarações excêntricas, inclusive do presidente: elas geram desconforto e mal-estar, já que são feitas pelos responsáveis por fazer o Estado brasileiro funcionar.

Dessa vez foi o ex-secretário especial da Cultura, Roberto Alvim: nome artístico de Roberto Rego Pinheiro. Alvim, ou Rego Pinheiro, foi ator antes de se tornar, segundo alega, um cristão atuante: saltou de ateu convicto a religioso fundamentalista após ser curado de uma doença grave no ano de 2017.

Em meados de 2019 foi chamado por Bolsonaro para ser diretor da Funarte. De novembro 2019 até a semana passada, atuou como secretário especial da Cultura, órgão do Ministério do Turismo. Foi exonerado de seu cargo na última sexta, 17 de janeiro.

Tudo se passou por conta do vídeo institucional em que anunciava o prêmio nacional de arte para 2020: assista-o e conclua você mesmo. Ali, o ex-ator Roberto Alvim teatralizou os dizeres do ministro da propaganda do governo nazista, Joseph Goeebles. Este, em pronunciamento de maio de 1933 dirigido a profissionais do cinema e do teatro da Alemanha, em essência, falou o que foi repetido performaticamente pelo tal Alvim. Lembre-se que no começo de 1933 a história ainda não conhecia o que viria a ser concretizado em nome do “nazismo”. Tudo era incipiente. A 2ª Guerra Mundial só teria início em setembro de 1939.

Várias conclusões podem ser tiradas desse novo ultraje governamental.

Aponto três: 1) Alvim foi convocado para o governo pelo próprio Bolsonaro, que só o exonerou após a grita popular e após pressão de líderes da comunidade judaica que, talvez hoje reticente, o apoiou, conforme amplamente noticiado.

2) O “dirigismo de Estado”, que se quis impor no âmbito da Cultura, só foi defenestrado por conta da “liberdade cultural” que nos permitiu saber que, um dia, Goebbles fez o mesmo como ministro da propaganda nazista.

3) Os “homens do presidente” gozam do aval deste para “vender” discursos e políticas antidemocráticas, do contrário não o fariam!

O lado bom é que todos os que respeitam as liberdades que garantem a condição humana não se intimidaram diante de mais uma investida autoritária de Brasília. A sociedade não se calou.

“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”…

GLAUCO GUMERATO RAMOS é advogado. professor da Fadipa. presidente para o Brasil do IPDP. e diretor de Relações Internacionais da ABDPro.


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