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Os javalis selvagens

FABIO JACYNTHO SORGE | 17/07/2018 | 05:00

Na última semana, o resgate dos meninos tailandeses do time de futebol dos Javalis Selvagens tomou conta do noticiário. A história dramática teve início no dia 23/06/2018, quando os doze jovens e o treinador da equipe faziam um passeio de bicicleta e entraram na caverna para se proteger do mau tempo.
A chuva ficou intensa e a água subiu muito rápido, deixando o grupo preso. Eles ficaram isolados e sem comida por nove dias. Em 02/07, mergulhadores ingleses encontraram o grupo, debilitado e com muita fome, a 4 km da entrada da caverna e entre 800m e 1 km de profundidade.
Ao ver as imagens da caverna pela televisão, a magnitude da operação de resgate surpreendeu. As passagens são estreitas e claustrofóbicas, sendo que o interior é um ambiente hostil e inóspito.

Chamou a atenção ainda o fato de, em alguns locais, sequer o cilindro utilizado pelos mergulhadores passava, sendo necessária a sua retirada e passagem isolada por pequenas fendas que haviam no caminho. Além disso, o treinador da equipe – que foi monge – conseguiu um feito e tanto, ao acalmar os jovens em situação tensa e desesperadora.

A operação de resgate durou três dias. No domingo (8) e na segunda (9) foram retirados quatro meninos, sendo que os últimos quatro foram retirados na terça (10), junto com o treinador da equipe. Cada garoto foi conduzido por pelo menos dois mergulhadores e usou máscara facial de oxigênio durante o percurso até a entrada da caverna, que durou seis horas e com vários trechos escuros, estreitos, com água turva e de baixa visibilidade.

Os jovens foram levados a um hospital e terão alta ainda nesta semana. Vendo a mobilização para o resgate e o salvamento dos jovens, fiquei contente, pois uma boa notícia tomou conta do noticiário. Num mundo marcado por individualismo exacerbado, notícias ruins, fome, corrupção, miséria e violência, ver tantas pessoas se dedicando a algo tão nobre quanto salvar o seu próximo nos traz um sopro de esperança. E talvez, em momentos assim, alguma força inexplicável tenha trabalhado junto com a equipe de resgate, permitido que todos os Javalis Selvagens voltassem para a casa.

A união perante a adversidade é o que nos faz mais fortes, já que os estreitos, lamacentos e imundados caminhos eram um desafio até mesmo para mergulhadores experientes como os envolvidos no resgate. Talvez se esse espírito de união que nos une nas tragédias perdurasse por mais tempo, poderíamos construir um mundo mais justo e solidário. Afinal, temos muito mais motivos para nos aproximarmos do que para nos dividirmos.
Fica a reflexão para todos, junto com a alegria pelo resgate dos Javalis Selvagens.

FABIO JACYNTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo – Vara do Tribunal do Júri – e coordenador da Regional de Jundiaí


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