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Os lutos da covid-19

MARGARETH ARILHA  | 13/05/2020 | 07:00

Somos hoje, de fato, um planeta enlutado. Situação verdadeiramente inédita pelo alcance inimaginável da pandemia de covid-19. Temos assistido, nas épocas contemporâneas, verdadeiros mares de mortes que nos deixaram perplexos. No Brasil, lembro por exemplo das mortes de Brumadinho.

Outras situações de que me recordo são das cenas dramáticas como as do incêndio do edifício Joelma, relembrado até hoje, ou a morte de jovens da discoteca da cidade de Santa Maria. Ou ainda dos jovens que foram brutalmente mortos no presídio do Carandiru. Vidas perdidas inútil e precocemente. Essas condições se dão em todos os países do mundo, com maior ou menor gravidade. Basta lembrar de situações ambientais, tão ou mais terríveis, como os tsunamis na Ásia ou os terremotos ao redor do mundo, ataques terroristas como o das Torres Gêmeas nos EUA, ou de guerras localizadas.

Tais situações exigiram o atravessamento universal, já identificado por inúmeros estudos e pesquisas, de um processo de luto claramente identificado por Elisabeth Kubler Ross. A autora, já bastante conhecida, define muito bem as etapas pelas quais o individuo que é afetado por essa condição de perda passa: negação, raiva, desejo de negociação com o destino, depressão e finalmente uma aceitação da situação.

Com a covid-19, passados em media 60 dias da situação de isolamento social, o mundo, guardadas as devidas proporções, se vê obrigado a começar a aceitar sua nova condição. Para cada um, a partir do lugar de sua própria subjetividade. Sim, as cores da pandemia tornaram mais fortes as desigualdades entre todos, entre regiões, entre países. Evidenciaram que as políticas de apoio se mostraram tão desiguais dependendo das circunstâncias em que se vive, que é impossível cegar.

Adicionalmente, agora já sabemos que o luto não ocorre apenas pela perda das vidas das pessoas, mas de seus sonhos, projetos, ilusões anteriormente estabelecidas. Agora, com tudo fora do lugar, com apenas o vírus se transformando numa certeza, as respostas compõem uma miríade impressionante de ações e reações subjetivas.

A ciência importa, mas ao mesmo tempo, o psiquismo grita. Como cada um aceitará a condição humana a que estaremos submetidos, daqui em diante, todos ao mesmo tempo? A pandemia nos igualou diante de nossa finitude, de nossa impotência e de nossa única saída: recomeçar.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp.


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