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Página do Evangelho

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE | 21/09/2019 | 07:30

A moça adentrou a Catedral com olhos doloridos, mas sem perder o brilho. Não a conhecia, apenas fora informada de que viria. Seu porte tristonho, mas sem dobras.

Noite de reflexão e prece com o Padre Jean-Marie Laurier, do Instituto Nossa Senhora da Vida, fundado na França pelo Beato Frei Maria-Eugênio do Menino Jesus, OCD.

Quando vem ao Carmelo São José, o Padre Jean-Marie, de sabedoria e alma generosa, se encontra com integrantes da Pastoral da Mulher/Magdala e do Grupo de Bocha Paralímpica.

O professor Jorge Romualdo, da bondade que salva, faz parte dos dois grupos e os aproximou na claridade de Deus que abençoa muito além dos limites e dos preconceitos do mundo em que vivemos. O seminarista Edisandro Lima Rocha, de nossa Diocese, o acompanhou.

A moça, Tiana de Oliveira, veio para uma oração pelo filho, Walisson de Oliveira Lima, de quem se despedira há poucos dias. O Walisson nasceu com Distrofia Muscular de Duchenne. Com o passar dos anos, seus movimentos foram se reduzindo. Não desistiu. Era dedicado aos esportes paralímpicos. Venceu, como guerreiro, a fraqueza dos músculos, dedicando-se aos estudos e à bocha paralímpica. Venceu através da coragem, dos sonhos infindos e da admiração e carinho dos seus. Sua mãe foi sua grande parceira-anjo nas conquistas e permanece na luta com os portadores de DMD.

O professor Romualdo me contou que, antes da despedida, no leito do hospital, o jovem pediu à mãe que elevasse seu braço, já sem resistência para isso, até próximo do rosto dela. Ao atender sua súplica, acariciou-lhe a face, agradeceu as décadas de cuidado e amor e, logo em seguida, partiu.

A Tiana manteve-se da firmeza necessária e, depois disso, na noite em que a conheci, buscou o consolo na Palavra e em meio a outros atletas, companheiros de seu filho, ou seja, permaneceu em pé.

Para quem assume sua história, com olhar no Céu, não há obstáculo que acovarde. Dentre as postagens de seu Facebook, que me emocionam: “Vai, meu amor, voa. Hoje você tem asas, é livre para seguir. Só não esqueça que eu te amo!”

No dia seguinte, o Padre Jean-Marie comentou com a Madre Maria Madalena de Jesus Crucificado, do Carmelo São José, que o encontro da noite anterior fora como uma página do Evangelho.

Tenho pensado sobre aquela noite: o Deus da Esperança afagou os corações doloridos e disse de Ressurreição.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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