Opinião

Parece que foi ontem


A vida é muito breve. Quando se dá conta, ela já passou. Revisitar o passado é uma viagem estranha. Há coisas boas, mas é uma jornada dolorosa. Há mais mortos do que vivos no trajeto afetivo. Principalmente porque as afeições mais intensas ocorrem na mocidade. No terreno família, a morte mais sentida foi de minha avó materna. Ela proporcionou mimo exagerado ao primeiro neto. Ia comigo ao Cine Marabá. Chorávamos juntos conforme o filme. Hoje, não costumo levar netos ao cinema. Os filmes estão disponíveis. Cada um tem seu mobile e se distrai naquela solidão compartilhada que é própria à era digital. O cortejo das partidas vai aumentando: todos os outros três avós. Meu padrinho Arthur, o irmão mais moço de meu pai. Tuberculose o levou aos 28 anos. Muito mais sentida, a morte de meu irmão. Tão mais novo do que eu. De tristeza, meu pai morreu pouco depois. Minha mãe ainda esteve conosco por mais catorze anos. Descobre-se que orfandade não tem idade. Difícil absorver a morte de jovens. Norberto Pastre Júnior, o primeiro colega de ginásio, precocemente falecido. Saudades de Lolô Bisquolo e de seu irmão Henrique; de Mário Augusto de Oliveira Bocchino; de José Carlos Le Sueur de Moraes; de Flávio Della Serra; de meu irmão de alma, Gilberto Fraga de Novaes, exatamente no dia em que meu filho se casava e eu ainda estava aturdido com a morte de minha mãe. Minha prima Bidu, Lúcia Helena Copelli Franzini. E Ricardo Feres Abumrad, Sarita de Oliveira Nunes Leal, a queridíssima Cláudia Maria de Lucca Parise. Delega, Pituca e Picoco! Edgar dos Santos. Sem falar na falta que me faz Rosa Scavone. Eliana Castiglioni e Cesarina Bigotti foram tão especiais para mim! Nunca mais conversar com Chãins Miranda Duarte, com Mariazinha Congílio, Adelaide e João Molina, Ademércio Lourenção, Wanda Latorre do Amaral Gurgel, Chuca Storani, Sonia Maria de Araújo Cintra!. Os jardins da memória, que posso percorrer de quando em vez, porque só eu tenho a chave, estão povoados de vultos amados. Será que um dia vou encontrá-los e conseguirei colocar a conversa em dia? Às vezes me apanho numa sensação de vazio e de abandono. Coisa de velho. Animal que às vezes chora de saudades. JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020.

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