Opinião

Partilha que converte o coração


"Quem despreza o próximo está pecando, quem se compadece do pobre será feliz" (Pr 14,21). Caríssimos leitores e leitoras:há, em nossos dias, uma questão muito importante na vida social e tão negligenciada na cultura atual: a questão da partilha e da solidariedade. De fato, parece muito fácil e natural partilharmos as alegrias e tristezas da vida com aqueles que são nossos amigos e parentes. Todavia, faz-se necessário enxergarmos e partilharmos as dores e angústias daqueles que não pertencem aos nossos círculos mais próximos, sobretudo os que são mais rejeitados e marginalizados pela sociedade hodierna. Infelizmente, vivemos num ambiente em que o bem-estar pessoal muitas vezes é colocado acima de tudo, fazendo com que nos fechemos e não caminhemos ao encontro do nosso próximo. É o que nos afirma o Papa Francisco: “A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros (...). Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!” (Homilia do Papa na celebração da Missa pelas vítimas dos naufrágios na travessia do Mar Mediterrâneo, na histórica visita à ilha de Lampedusa, Itália, 8 de julho de 2013). Urge, portanto, que nossas atitudes sejam revistas, a fim de que deixemos nosso egoísmo de lado e voltemos o nosso olhar para o nosso próximo. A esse respeito já nos orienta, desde o preâmbulo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948): “o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”. Isso significa que humanamente somos todos iguais e, por isso, devemos ser tratados com os mesmos direitos e deveres. Aliás, Jesus Cristo empenhou-se em difundir essa verdade por suas palavras e gestos proféticos. Diante disso, devemos olhar para as nossas atitudes e refletir sobre nossos atos que possam gerar injustiça e exclusão, sobretudo considerando o privilégio de poucos em detrimento do bem comum de muitos outros. Quantas vezes caímos na tentação de nos fechar em nossas ‘redomas’ e tornamos o nosso olhar insensível para a partilha, sobretudo para com os mais necessitados! Na Homilia que o Papa Francisco proferiu na Missa por ocasião do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, disse: “Não podemos permanecer insensíveis, com o coração anestesiado, diante da miséria de tantos inocentes. Não podemos não chorar. Não podemos não reagir” (29 de setembro de 2019). Tenhamos um coração sensível, cheio de misericórdia e compaixão diante de tantos irmãos nossos que padecem por causa de uma vida realmente indigna. DOM VICENTE COSTA é bispo diocesano de Jundiaí

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