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Patriotismo ou Pratiotismo?

JOSÉ RENATO NALINI | 08/12/2019 | 05:01

Benjamin Constant foi um dos heróis da República Brasileira. Era adepto do positivismo, do qual derivou o dístico da bandeira: Ordem e Progresso. Era professor de matemáticas elementares e, com suas aulas, sustentava mãe e irmãs.

Cursou a Escola Militar na capital do Império e ali foi lente interino, a ministrar aulas de cálculo diferencial e integral. Adepto fervoroso das doutrinas de Augusto Comte, sustentava que a morte é um dos principais fatores do progresso humano.

A todos recomendava a leitura da Filosofia Positiva de Comte, principalmente o quarto volume, em que o positivista disserta a respeito da física social.

Atuante na propagação do ideal republicano, também ele logo se desiludiu. Confessou que esperava um sincero patriotismo, porém só encontrava ‘pratiotismo’.

A quem confessava desconhecer a palavra, ele respondia: “Inventei-a para meu uso. Há simples transposição de um ‘r’ da segunda sílaba para a primeira. ‘Pratiotismo’ é o amor incondicional, acima de tudo, do ‘prato’, da barriga, do interesse, o sentimento que inutiliza, espezinha e conculca o patriotismo”.

Aquilo que Benjamin Constant detectara, logo nos primeiros anos da República do Brasil, ganhou expansão colossal, avassaladora, evidenciando que o ser humano parece incapaz de pensar no próximo, oferecer algo de genuíno e gratuito para a Pátria, sem primeiro colocar seus propósitos na dianteira.

Não faltou aviso aos republicanos brasileiros. Um deles proveio do Visconde de Itaboraí, considerado um pessimista, mas com intermitências da mais inopinada e fogosa confiança no futuro e nos destinos do Brasil.

Dizia ele: “Os senhores verão, eu não, que breve me despeço desta vida. As coisas hão de ir de mal a pior. Far-se-á a abolição e depois, quando menos se espere, a república. Aí, o esboroamento será completo. Cada província, cada município, puxará para o seu lado, e a delapidação dos dinheiros públicos tornar-se-á pavorosa. Não haverá mais ordem nem liberdade possíveis, e a anarquia reinará de todos os lados, fomentada pelos maiores escândalos”.

Mas acrescentava, triste e abatido: “Entretanto, este povo brasileiro é tão bom, tão cordato, tão digno de melhor sorte!”.

JOSÉ RENATO NALINI  é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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