Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Ponto de vista é diferente de vista de um ponto

EGINALDO MARCOS HONORIO | 06/12/2019 | 05:01

Ao abordar discriminação, racismo, preconceito e afins, surgem manifestações em sentido contrário que nos causam desgosto, decepção, constrangimento e até medo.

Os que se contrapõem à luta pela igualdade entre os seres humanos, indiscutivelmente refletem o distanciamento da educação formal e o direcionamento discriminatório contra especificamente o povo negro, bastando simples consulta à rede social para constatar falas afirmando que, por exemplo, “somos todos iguais” e que o tema “consciência negra” deve ser substituído por “consciência humana”, apenas e tão somente para desqualificar a luta contra a injustificável maldade contra a comunidade negra.

Absurdamente, no mês de novembro, em que no Brasil todo são promovidos eventos tratando da questão racial, deparamos com ofensas de toda ordem, desde o impedimento de uma mulher negra de adentrar a uma das agências da CEF Local: um professor negro esfaqueado em sala de aula; a artista ofendida e ameaçada ao interpretar a figura de bombeiro; balas perdidas que, estranhamente, encontram pessoas negras, a nomeação de pessoa – apesar de negra totalmente contrário à luta – a ocupar posto importantíssimo no governo, em divórcio à finalidade precípua da preservação dos valores culturais, históricos, econômicos, sociais, cidadania e etc, em pleno funcionamento desde o ano de 1992.

Tudo depende do ponto de vista e, nesse sentido, por qualquer prisma que se olhe, é inadmissível alguém sustentar que a escravidão foi ‘benéfica’.

A falta de conhecimento é tão grande que o autor dessa frase, pelo jeito, sequer imagina que a escravidão foi reconhecida como ‘Crime contra a Humanidade’ na Conferência Mundial Durban (África do Sul) 2001. Destaque-se que nem o holocausto, com elevado respeito, recebeu tão grave avaliação.

A recente notícia da indicação de pessoa com recorte oposto à presidência da Fundação Palmares, deixa transparecer interesses outros e voltados a incitar desavenças no segmento e não deixam dúvidas quanto à prática de ‘crime de racismo’ na medida em que o indicado atacou de forma violenta todos os afro-brasileiros, tachando-os de ‘babaca’, ofendendo artistas e personalidades negras além da mácula imperdoável contra o Líder Zumbi dos Palmares.

A mídia vem apresenta os danos causados à população negra brasileira, desde vítimas das tais ‘balas perdidas’, a ataques a professores, discriminação no mercado de trabalho, na saúde pública, no não reconhecimento de direitos iguais, judiciário, acesso a serviço público e por ai vai e, os que estão longe dessa realidade insistem em afirmar que se trata de ‘mimimi’ e que não há desigualdade o que, inegavelmente, depende do ponto de vista.

Como disse o poeta, “só quem sente a dor sabe o quanto dói’

EGINALDO MARCOS HONORIO é advogado e membro do Conselho Municipal da Comunidade Negra de Jundiaí – eginaldo.honorio@gmail.com


Leia mais sobre
Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/ponto-de-vista-e-diferente-de-vista-de-um-ponto/
Desenvolvido por CIJUN