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Preste atenção ao mercado

JOSÉ RENATO NALINI | 15/03/2020 | 05:01

A ignorância repudia a ciência e nega a evidência. O planeta está no limite da exaustão e a natureza responde como pode à crueldade humana. Inundações como as do início de 2020 vão se tornar cada vez mais mais comuns. Paradoxal que o cemitério de São Serafim, no nordeste, esteja sendo sepultado pela água do mar. O aquecimento global, resultante da mutação climática produzida pela espécie mais nociva, é realidade incontestável.

Talvez os ouvidos moucos dos imediatistas prestem atenção às advertências do Fórum Econômico Mundial, cuja 50ª realização levou a Davos chefes de Estado e cientistas, além de ativistas. A conclusão de Klaus Schwab, que criou essa instância supra estatal há meio século, é muito clara: o mundo tem dois problemas urgentes. Um deles, a desigualdade. O outro, o ambiente, que está na UTI.

Interessante verificar que os polos se encontram ao detectar só realidade. O alto comissariado da ONU, os mais prestigiados cientistas, os homens que não perderam a consciência solidária e sua responsabilidade perante o futuro da Terra e os indígenas, que tentam subsistir a uma sociedade que continua a trata-los como semoventes.

Morreu em 17 de janeiro deste ano o líder indígena Awaulukumã Waurá, considerado “o livro vivo da sabedoria” do Alto Xingu. Ficou célebre quando proclamou: “queremos saber o que está acontecendo. Antes nós sabíamos quando a chuva ia chegar, quando ia parar e voltar, agora não sabemos mais. Antes, o rio tinha uma altura, agora parece secar. E possível andar por ele com a água na cintura. Na beira do rio, estão secando os lugares onde pegamos barro para a cerâmica, tão importante para nós.

Também estão diminuindo as frutas, que os peixes vêm comer na época da cheia. Diminuiu o sapé de cobrir as casas, sumiu a embira de amarrar a casa, ficamos sem madeiras para construção. Tudo isso está sumindo, até o material que usávamos para fazer arco e flecha. Antes fazíamos a roça e sabíamos controlar o fogo. Agora, ele escapa, foge e espalha. As coisas não eram assim quando era pequeno”.

O Brasil não ouviu o indígena, o verdadeiro dono da terra. Ouvirá os conselhos de Klaus Schwab e o prenúncio de desgraças ainda maiores, se não nos convertermos em verdadeiros guardiões da natureza?

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


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