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Quando mudar de ideia é evolução

JOSÉ RENATO NALINI | 24/10/2019 | 07:00

O Brasil não deixa de ser um país hipócrita. Foi hipocrisia obscurantista a extinção dos cassinos, diante da carolice da Primeira-Dama. Àquela oportunidade, já são 72 anos passados, mais de setenta mil brasileiros perderam o emprego. Eram os garçons, cozinheiros, operadores e crupiês que não tiveram como sustentar suas famílias. E também cantores, humoristas, palhaços, dançarinas e outros partícipes dos shows apresentados na Urca, em Poços de Caldas, em Santos e em outras cidades brasileiras.

A hipocrisia está em que, setenta anos depois, ainda se discuta sobre os malefícios do jogo. Qual jogo, cara pálida? As loterias estão sempre repletas de brasileiros tentando ‘a sorte grande’. As corridas de cavalos são ainda concorridas. O ‘jogo do bicho’, diz-se, é o mais honesto que possa existir. Nem pode se chamar contravenção, pois foi derrogado pelo costume. Nenhum brasileiro acha que esse jogo seja algo ilícito.

Mas os tempos mudaram. O mundo inteiro propicia a jogatina e os ricos são os que tiram proveito disso. Já contei que em St Moritz, no charmoso Hotel Kempinsky, logo ao chegar, recebe-se farto material incentivando a visita ao Cassino. Convite para drinks, para jantar, algumas fichas, chocolate e um farto material explicando quais os jogos disponíveis.

Casa repleta, assim como em Las Vegas, cidade que se converteu num polo turístico planetário. Só no Brasil persiste a obscurantista postura de se proibir o jogo. Mas ele é intensamente praticado. A era digital disponibilizou vasto cardápio de opções e temos até campeões em poker.

Faz-se jogo pela internet e os ganhos são destinados à ‘pobre’ Inglaterra ou ao ‘indefeso’ Estados Unidos.

Por isso é de se comemorar a mudança de posição da poderosa Folha de São Paulo. Em editorial de 20.10.19, admite que estão superadas as barreiras para a volta do jogo no Brasil. Controlado, fiscalizado, mas uma fonte de receita que não é dado ao governo ignorar. Principalmente quando a estagnação persiste, há milhões de desempregados que poderiam exercer com proficiência as múltiplas funções propiciadas pelos jogos.

A postura honesta e franca da FSP é um exemplo de mudança de ideia a significar evolução. Persistir na rigidez de opiniões como se fossem definitivas é antinatural numa fase em que as mutações são inevitáveis e o inesperado nos surpreende a cada instante. Que venham os jogos legais!

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove


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