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Quem ainda escreve cartas?

José Renato Nalini | 21/11/2019 | 07:00

Sou um fenômeno arqueológico. Ainda escrevo cartas. Às vezes, até em papel, com envelope, selo e envio por correio. Mas reconheço que essa tendência acabou. Os e-mails substituíram as missivas e o WhatsApp substituiu o e-mail. O que mais virá?

Por isso, é interessante verificar que a correspondência chegou a ser objeto de inúmeros livros. Houve gênios que se corresponderam amiúde, legando milhares de cartas. Estas mereceram, por exemplo, a publicação do volume número 1 da Biblioteca Academia Paulista de Letras.

A iniciativa de criação dessa coletânea foi do Presidente à época, José Pedro Leite Cordeiro e contou com a imprescindível colaboração do Governador Paulo Egydio Martins, em 1975. O livro contém as cartas de Álvares de Azevedo, patrono da Cadeira 9, comentadas por Vicente de Azevedo, profundo conhecedor da vida e obra dos poetas românticos.

A publicação foi possível porque a mãe do poeta, D. Maria Luísa mandou encadernar as cartas do filho. O único exemplar estava na posse de D. Maria Francisca Álvares de Azevedo Amaral, irmã sobrevivente.

Mas o destino desse tesouro sofreu vicissitudes que ensejariam escrever outro livro. As cartas foram passando de mão em mão e a cada transferência, eram subtraídas. Algumas como lembrança do poeta precocemente falecido. Outras, apenas para a apropriação do selo, o famoso “olho de boi”, que os filatelistas tanto valorizam.

Isso costuma acontecer com os escritos produzidos por vidas que mereceriam respeito. Mas não é incomum a perda de preciosos testemunhos, atestados de uma época sepultada pelo incessante curso do tempo. A leitura das Cartas de Álvares de Azevedo permite se constate que ele era ingênuo, quase infantil. Só na poesia foi um beberrão, um fumante inveterado, um apaixonado e sensual parceiro sexual de mulheres que não chegou a conhecer.

E hoje, como é que os poetas escrevem? Servem-se das TICs – as Tecnologias da Informação e da Comunicação? Deixam rastros? O que acontecerá quando ocorrer a grande explosão da biblioteca digital? Está excluída a possibilidade de uma grande pane no sistema? Voltaremos às cartas manuscritas em papel? Haverá quem as leia?

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, e docente da pós-graduação da Uninove

 


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