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Quero passar

MARGARETH ARILHA | 21/02/2018 | 05:58

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Agora sim, agora que tudo se foi, abram alas que eu quero passar! Eu, aquela mulher que sai tão cedo de casa, com energia de quem vai se defender de um golpe violento e que desde cedo sente no peito aquela angústia já tão cotidiana, tão companheira, tão normal, tão presente. Eu, que junto os trocados, que conto as moedas do leite, que tenho planos para recomeçar tudo, de novo. Eu, que estou me dissolvendo, que vejo meu corpo envelhecer e a cada dia que passa acumulo novas dores e novos enigmas em minha alma. Eu, que acordo cedo e me sinto cansada porque, agora, com os custos aumentados, os donos da casa só pedem faxina a cada 15 dias ou mensalmente, e a cada dia percebo que meu corpo precisa de mais e mais forças para limpar aquilo que se acumulou nesses dias: pó, terra, fuligem, sofrimentos e mais sofrimentos. Eu, que agora tenho que cuidar dos mais velhos, que estão sempre e a cada dia mais velhos, e tenho que criar mais dois braços para acolhê-los. Eu, mulher, que sofro quando acordo cedo para acolher as dores da filha desesperada, que pensa em se suicidar e matar aquelas crianças, caso não consiga mais alimentá-las de comida e de amor. Eu, a quem eles vão enlouquecer se não houver um pouco mais de cuidado e soluções.

DOUTORA ROSA MARGARETH ARILHA

DOUTORA
ROSA MARGARETH ARILHA

Eu, que olho atônita aos movimentos dos corpos masculinos armados, que farão sua intervenção, que atirarão sobre o sofrimento de todos, acrescentando mais e mais sofrimento. Eu, que em silêncio rezo, em inglês, em francês, em árabe, em grego, em espanhol, em italiano, em japonês, em chinês, em português, eu que corro na rua, que salto como saltimbanco, usando todas as cores.

Eu, que olho pressionada pelo relógio e respiro aliviada, porque ganhei mais um dia. O verão acabou. Eu, a quem o gato acorda logo cedo, anunciando que o tempo da noite terminou. Eu, que choro e olho para a praça e vejo ternura e saudades, que olho para as crianças e vejo que elas se mantêm existentes, e que nós, nós as destruímos, de um só golpe, enfiando goelas abaixo os objetos de consumo detestáveis que nos obrigamos a “ter” para “ser”.
Eu, que vejo os ataques e as mortes, e jovens chorando. Eu, que tenho medo. Eu, que corro sem saber, que conto moedas, vendo as roupas, vendo os sonhos, vendo a vida e que tenho medo e disfarço. Eu, que gozo da vida. Eu, que apenas de repente acordo e me lembro que não existo, mas terei que votar.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]


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