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Renato Nalini: A demanda por mentiras

RENATO NALINI | 11/04/2019 | 04:01

A convite do jurista Ruy Altenfelder, proferi palestra numa reunião do Consea – Conselho Superior de Estudos Avançados, vinculado ao Instituto Roberto Simonsen da Fiesp/Ciesp. Abordei o tema “Ética na Pós-Verdade” e fui honrado com a presença de inúmeros conselheiros e várias personalidades. Iniciei afirmando que ética é sempre uma pregação para “convertidos”. Os que precisariam ouvir, não se interessam. Quem se interessa já leva a sério a ética, essa matéria-prima de que o Brasil tanto se ressente.
Houve debates na sequência, com uma notável intervenção do Professor Jacques Marcovitch, ex-Reitor da USP, uma das personalidades mais respeitadas na cultura mundial. Tanto que reside em Genebra, a desenvolver pesquisas e a presidir instituições que transformam a convivência, nesta era em que a 4ª Revolução Industrial nos impõe graves desafios.
A indagação do Professor Marcovitch foi instigante: se há pós-verdade, é porque existe uma demanda por mentira. E se a mentira é companheira imemorável da humanidade, sempre existiu – a partir de Caim – “Por acaso sou guarda de meu irmão?” – agora a mentira é financiada. Há um bem organizado, eficiente e premeditado financiamento da mentira. Com vistas a derrubar a democracia? Não se sabe exatamente. Mas os sintomas são bastante eloquentes.
A manipulação algorítmica identifica tribos de mentalidades análogas, fortalece as convicções, quase sempre preconceituosas e, mercê de uma engenharia sofisticada, produz uma avalanche cultural que sufoca a espontaneidade, mas fortalece as pré-compreensões.
Como trabalhar com a fabricação ininterrupta de inverdades, as quais, de tão repetidas, passam a constituir a versão verdadeira?
Esse é um dos efeitos perversos do avanço das tecnologias da informação e da comunicação. Mas depende de cada um de nós reagir a esse tsunami de mentiras. A desinformação se combate com a busca de informação fidedigna. Conferir, contestar, não perder a capacidade de indignação. A verdade, como o sol que elimina a escuridão da ignorância, está disponível a quem quiser persegui-la e, uma vez alcançada, difundi-la para que prevaleça. Verdade e bem são sinônimos. Assim como mentira e mal. A escolha é nossa.

[RODAPE_OPINI]JOSÉ RENATO NALINI
é Reitor da Uniregistral, Docente
da Pós-Graduação da UNINOVE e
autor de “Ética Geral e Profissional”,
13ª ed., RT-Thomson Reuters.


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