Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Renato Nalini: A nobre classe dos adesistas

JOSÉ RENATO NALINI | 01/11/2018 | 07:30

A matéria de que é feito o ser humano é miserável. Ordinária, naquele sentido vulgar na linguagem das pessoas simples. Antigamente, chamar alguém de “ordinário” era ofensa grave. Mas as palavras, como os costumes, vão perdendo a seiva. Transmutam-se. Para melhor ou para pior. O que eu gostaria de sugerir é uma reflexão em torno ao comportamento daquelas moscas varejeiras que gravitam em torno ao poder. Qualquer espécie de poder. Qualquer dimensão de poder.

Em época eleitoral, exacerbam-se as paixões e a ronda se faz diante daquele que ostenta condições de vir a ser o vencedor. Promessas, compromissos, discursos, bravatas. Apura-se o resultado do pleito. Aquele cortejado não foi eleito. Quase sempre fica sozinho, porque a vitória tem muitos pais, enquanto a derrota é órfã. De pai e mãe.

O mais vergonhoso é verificar que aqueles que ontem bravejavam contra o hoje vencedor, procurem aproximação a qualquer custo. Alguns não se pejam de ser “papagaios de pirata” e ficar ao ombro daquele que está a conceder entrevista. Outros procuram pessoas influentes, tudo para salvar o cargo, a função, o posto sem o qual não sobreviveriam. Pois não são daqueles que enfrentam o trabalho árduo. Não são aprovados em concurso, porque não estudam. Não sabem empreender. São minúsculos satélites em rotação permanente junto a quem simboliza o sol. O sol do poder, do comando, da glória e da fama.

Incrível como não se guarda o “luto” subsequente à derrota daquele que até ontem era seu favorito. Hoje é fácil renega-lo. Assim como Pedro: – Eu não conheço aquele homem! Pedro negou três vezes. Os pequenos traíras negam seguidas vezes. Tudo fazem para preservar as migalhas de um poder carcomido, no qual nem eles mesmos acreditam. Mas a sua tibieza e inferioridade não permitem alçar maiores voos.

Assistir de perto ou ao longe o rastejar dessa raça repugnante seria divertido. Não fora a confirmação de que o gênero humano tem muito a aprender para se tornar efetivamente humano. Essa praga viceja e grassa em todos os círculos do poder. É a nobre classe dos adesistas. Daqueles que aderem depois da vitória. Querendo saboreá-la como se fosse conquista deles. Pobre gente!

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed. – RT-Thomson

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/renato-nalini-a-nobre-classe-dos-adesistas/
Desenvolvido por CIJUN