Opinião

Renato Nalini: Clorinda, Vitória e Henriqueta


Em tempos de confinamento, há tempo de sobra para remexer o baú das memórias. Resgato, de minha infância, vultos femininos que me impressionaram. Quase não me lembro de minha nona, Catharina Boaroto Nalini, que morreu em 1949. Eu não tinha quatro anos. Mas me recordo bem - e com crescentes saudades - de minha avó materna: Anna Rodrigues Barbosa, "Doninhana", para os que a conheciam. Era moderna para os padrões da década de cinquenta e mimava-me como primeiro neto. Ia comigo às matinês do Cine Marabá, o antigo salão paroquial da rua do Rosário. Mas retrocedo aos anos iniciais de aluno da Escola Paroquial Francisco Telles e frequentador assíduo da então Matriz de Nossa Senhora do Desterro. Familiarizei-me com as cuidadoras dos rituais eclesiásticos. As irmãs Vitória, Clorinda e Henriqueta Zambom eram o padrão de paroquianas fidelíssimas, onipresentes a todas as cerimônias. Nunca tive proximidade maior com elas. Eram irmãs de um grande amigo e companheiro de trabalho de meu pai, Antonio Zambon, o "Tunico". Morreu jovem e deixou linda família para a viúva Odete criar. Mas em virtude da proximidade geográfica, eu frequentava também o Mosteiro de Sant'Anna, que nós chamávamos "São Bento". Era muito próximo à casa de meus nonos. Ali tive catecismo com D. Zéca e D. Lica. Meu pai era muito assíduo à Catholica Unio e aos esportes praticados no campo de futebol dos beneditinos. Era "avulso" no Parque Infantil Prefeito Manoel Aníbal Marcondes, onde pontificavam D. Judith Curado Arruda, Vera Brenna Brayner, Maria da Glória Pontes de Toledo e Diva Vicente. Por um período, fui aluno do pré-primário do Educandário Nossa Senhora do Desterro, onde reinava Irmã Josina e acolitava Irmã Carmem Bergamasco, no final da vida artesã de imagens sacras. Minha professora foi Branca Paolielo Conde. Um pouco mais tarde, já aluno do Ginásio Divino Salvador, conheci em circunstâncias aflitivas para mim e meu irmão João René, cinco anos mais novo, a bondade de Nela Petroni, de quem sempre me recordo com carinho e gratidão. São mulheres que povoam o meu jardim das memórias e que são o testemunho de que Jundiaí, cidade tradicional e conservadora, já possuía seres de fibra, cada qual em seu espaço, num protagonismo singular. JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da Academia Paulista de Letras - 2019-2020.

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