Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Renato Nalini: Cuidado com a mão que afaga

Renato Nalini | 05/04/2020 | 07:00

Domingo de Ramos em plena crise do coronavírus é uma oportunidade para aprofundar a reflexão dos que integram uma sociedade autodenominada cristã. Crescera a fama de milagroso do jovem carpinteiro de Nazaré. Ele multiplicara pães e peixes, serenara os mares, curara enfermos, fizera aleijados andar e cegos enxergar. Ressuscitara mortos! Que maravilha! Àquele tempo, sem redes sociais, já existia a propagação boca a boca. Foi o assunto do momento. Estava em todas as casas, em todas as rodas.

O povo se extasiou. Jesus já não tinha direito à privacidade. Onde ia, o séquito popular aumentava. Todos queriam chegar perto, tocar suas vestes, merecer um olhar misericordioso. No domingo anterior à prisão, fizeram-no percorrer Jerusalém montado numa animália e com ramos nas mãos, apregoavam os seus milagres e o consideravam detentor de todos os méritos. Um culto popular a quem provou ser maior do que as leis físicas.

Esse mesmo populacho pr<CW14>eferiu Barrabás a Cristo, poucos dias depois. Quando viu que ele era suscetível de humilhações, pois fora preso, de sofrimento, pois fora torturado e aceitava passivamente a manifestação da crueldade humana, arrefeceu o anterior entusiasmo.

Essa é a miséria das criaturas. Anima-as o egoísmo, o interesse imediato, a obtenção de benesses. Por isso é que bajulam, chegam a um servilismo abjeto perante qualquer detentor de poder, autoridade ou condições de atender a algum objetivo dos que o cercam. Exaurida a potencialidade de satisfazer egos, o antigo alvo das reverências e homenagens sentirá o sabor do verdadeiro caráter dos que o cercaram tão obsequiosos.

Isso aconteceu com o próprio Filho de Deus! Por que não se repetirá com outros exemplares da espécie que nem de longe têm seus atributos? Pobre criatura aquela que se ilude com o teatro hipócrita dos aproveitadores. Não se espere nobreza, comportamento ético ou coerência. O material de que é feita a espécie racional não é de primeira qualidade. Tanto que destinada a voltar à terra, sepulcro inevitável de todas as vaidades.

Hoje é dia de ter presente que a mão que afaga é a mesma que apedreja. Sem dó e sem piedade.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.


Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/renato-nalini-cuidado-com-a-mao-que-afaga/
Desenvolvido por CIJUN