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Renato Nalini: Cuidado com a régua

JOSÉ RENATO NALINI | 28/03/2019 | 07:30

Somos peritos em usar a nossa régua, metaforicamente, os nossos critérios atuais, para analisar e proferir julgamentos sobre fatos ou pessoas submetidas a outra régua. Ou seja: tudo a seu tempo. Os valores mudam, as circunstâncias também. Tudo se submete a contínua mutação e nem sempre se faz uma avaliação correta, se os valores presentes incidem sobre um passado em que eles eram outros e diferentes.
Isso porque hoje, 31 de março, é a data da chamada “Revolução de 1964”, recentemente denominada “Movimento”. Seja como for, um episódio da história do Brasil que precisa ser aferido à luz do que ocorria àquela época.
Eu não dispunha de formação política especial. Rapaz do interior, de família humilde, mas digna. O que testemunhei: a população era favorável ao que considerou, à época, retomada de símbolos sob ameaça. A marcha realizada em São Paulo se chamou “Marcha com Deus, pela Família e pela Liberdade”. Alguém poderia ser contra a família e contra a liberdade? Quanto a Deus, embora católico praticante, convivo com ateus ou agnósticos provavelmente mais cristãos do que eu.
Os jovens jundiaienses não se recusaram a participar da coleta “Ouro pelo bem do Brasil”. Nem a participar de jogos patrocinados pelo Exército Brasileiro, a convite do General César Montagna de Souza, um dos militares célebres, como os “dezoito do Forte” de Copacabana.
Jundiaí contava com dois quartéis: o Comando da AD2 – Artilharia Divisionária da 2ª Divisão de Infantaria, sob a direção de um General de Brigada. E o 2º GO 155mm – 2º Grupo de Obuses 155 mm. Depois convertido em Grupo de Artilharia de Campanha, enquanto a AD2 deixou a cidade.
Emilio Garrastazu Medici veio paraninfar a maior turma do Mobral do Brasil, na gestão Walmor Barbosa Martins, em trabalho liderado por Maria de Lourdes Torres Potenza.
Àquela altura, não se falava de desaparecimento de brasileiros, nem de tortura, nada que, posteriormente, veio a ser pesquisado pela Comissão da Verdade.
É difícil para o ser humano se convencer de que não há maniqueísmo possível. Ou seja: nem sempre o mal está todo de um lado e o bem inteiramente do outro. Acrescente-se a esta reflexão, que o Marechal Humberto de Alencar Castello Branco morreu pobre, situação em que muitos dos luminares da redemocratização não se incluem.
Enfim, com a régua que vier a ser utilizada, você também será julgado. Considerará justo esse julgamento?

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da UNINOVE e Presidente da Academia Paulista de Letras 2019-2020.

JOSE RENATO NALINI

 


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