Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Renato Nalini: Cumpre resgatar o prestígio

JOSÉ RENATO NALINI | 20/06/2019 | 07:30

Assis Chateaubriand, um dos brasileiros de vida mais aventurosa que se possa imaginar, um dia conseguiu entrevistar Karl Kautsky, teórico marxista considerado o herdeiro político de Friedrich Engels e que depois caiu em desgraça. Tanto assim, que Lenin escreveu em 1918 o livro “A Revolução Proletária e o renegado Kautsky”.

Depois de algumas peripécias, pois o entrevistado se recusava a receber um jornalista de nome de família francês e de um país que havia apoiado a Alemanha na I Grande Guerra, passou longo tempo com o líder caído em desgraça.

Kautsky passou a entrevistar Chateaubriand, curioso de tudo o que acontecia no Brasil. Indagado sobre o que era o Parlamento brasileiro, Chateaubriand respondeu: “Doutor Kautsky, o Poder Legislativo no meu país é quase sempre um seio de Abrahão, largo, generoso, onde todos os deputados só aspiram a um objetivo: a bem-querença do Poder Executivo”.

O episódio é narrado por Fernando Morais, no esplêndido “Chatô: o Rei do Brasil”, p.115. Estávamos ainda na primeira década do século XX. Agora estamos encerrando a segunda do século XXI. O conceito ou o preconceito em relação ao Parlamento mudou?

Na formatação idealista de Montesquieu, o Parlamento é a função estatal de maior relevância. Elabora as “regras do jogo”. Para o Estado de Direito, administrar ou governar, tarefa do Executivo, é cumprir a lei. Missão do Judiciário, fazer incidir a vontade concreta da lei quando surgem controvérsias. Ambos jungidos à vontade parlamentar, portanto. Pois a matéria-prima de que se encarrega o Parlamento é elaborar a normatividade.

O que aconteceu, na história parlamentar, para que o Legislativo deixasse a postura altaneira, para se converter, muita vez, em instituição dependente do Governo?

O resgate do prestígio parlamentar está nas mãos e na consciência de eleitos que saibam honrar o mandato, que mirem o interesse nacional, nem sempre atrelado a segmentos aos quais se impõe reconhecimento, pois os responsáveis pelo êxito eleitoral.

No momento em que o Brasil enfrenta dificuldades e oferece panorama de economia trôpega, a Pátria necessita de lideranças confiáveis, conscientes e lúcidas, que abandonem a prática do “dá lá, toma cá” para oferecer o máximo de sua inteligência e capacidade de trabalho no sentido de colocar o País no rumo certo.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.


Leia mais sobre |
Link original: https://www.jj.com.br/opiniao/renato-nalini-cumpre-resgatar-o-prestigio/
Desenvolvido por CIJUN