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Renato Nalini: Éramos seis

JOSÉ RENATO NALINI | 21/03/2019 | 07:30

A escritora Maria José Dupré, também conhecida literariamente como “Madame Leandro Dupré”, escreveu um livro com esse título. História de uma família que foi se desfazendo em meio às vicissitudes normais à existência finita de qualquer ser humano.
Emocionante a leitura, como fez chorar a novela quando encenada pelo SBT em 1994, com Irene Ravache, Natália Timberg, Marcos Ricca, Ney Latorraca e grande elenco.
Noticia-se que a Globo vai fazer um remake da novela em 2020, com Silvio Abreu e Rubens Ewald Filho no comando. Com certeza, nova temporada de choradeira.
É bom chorar. Assim como é bom rir. É importante, cada vez mais, ter as emoções que mostram que o ser humano é alguém sensível, não o autômato que faz tudo aquilo que deve ser feito e se esquece de que a matéria-prima de sua alma é intangível. Principalmente nestes tempos em que se atenua, a cada instante, a diferença entre corpo e máquina, é essencial não perder a capacidade de voltar às reações primitivas, mais instintivas e, quanta vez, incontroláveis.
Quando li “Éramos Seis”, ainda adolescente, associei imediatamente o enredo com a minha própria família. O círculo íntimo de meus pais e seus quatro filhos. Éramos seis! Em 1989, perdemos René, quase-caçula. Em 1991, perdemos meu pai. Em 2005, perdemos minha mãe.
Já somos três. Ainda temos um pouco de memória para lembrar nossas origens. Dos filhos de meus avós maternos, não resta nenhum. Igualmente, dos filhos do lado paterno – e eram catorze! – ninguém sobrou.
Acostumar-se com a morte é difícil. Temos uma vocação para o infinito. Custa acreditar que todos os sonhos, todas as experiências acumuladas, tudo aquilo que se amealhou e guardou na memória esteja destinado ao nada.
Só a crença para trazer esperança a este ser frágil, que se angustia quando tem noção de quão efêmera é sua vida: algumas décadas, nada mais. E que invoca a graça da Providência para não ser acometido daquela “noite escura” que até os doutos experimentaram, como Teresa D’Ávila, João da Cruz e Madre Teresa de Calcutá, evidência de que nossas estruturas nem sempre são a fortaleza que em tempos felizes pretendemos exibir.
Um pouco de humildade sempre faz bem, para serenar o ego, cuja impulsividade é resquício do predomínio da animalidade sobre a razão.

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Pronto Para Partir?” e Presidente da Academia Paulista de Letras.

JOSE RENATO NALINI


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