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Renato Nalini: Espaço de construção

JOSÉ RENATO NALINI | 31/03/2019 | 07:30

O lamentável episódio de Suzano foi explorado de várias formas. Houve quem argumentasse com a falta de armas de que padeceriam professores e funcionários. Se estivessem armados, a carnificina poderia ter sido evitada ou ao menos reduzida. Outra explicação foi a influência dos games violentos, da internet que povoa a mente e ocupa a integralidade do tempo das crianças e jovens brasileiros. Também se procurou explicar com a falta de estrutura familiar dos envolvidos. Mas não se explorou a condição de suicidas dos dois jovens responsáveis pela morte de um tio, de uma coordenadora, de outra funcionária e de quatro colegas. Os dois haviam se convencido de que não voltariam com vida dessa experiência terrível. O primeiro matou o segundo e, em seguida, praticou o mais atroz atentado contra a própria vida.
O que significa essa opção pelo suicídio?
Falta de sentido para a vida. Um futuro sem perspectivas. Ausência de Deus. Carência de carinho parental. Mas a escola tem algo a ver com isso?
A escola brasileira está defasada. Anacrônica, superada, praticamente falida, ao menos em grande parte. É que a grande preocupação dos educadores ainda reside na instrução do alunado. Crianças e moços são treinados a decorar informações. E, depois, a reproduzi-las nas contínuas avaliações.
Há uma volúpia pela aferição do conhecimento adquirido pelos estudantes. Como se ainda prevalecesse a concepção de que alguém é o detentor do conhecimento e sua missão é transmiti-lo a quem não sabe nada.
O mundo mudou. As informações estão disponíveis, crescem a cada instante. O grande desafio é filtrá-las para que, assimiladas aquelas que servem para modelar a mente educanda, se convertam em conhecimento e venham a ser sedimentadas em sabedoria.
A sala de aula não pode ser mais o espaço da instrução, da transmissão de informações que estão disponíveis e muito mais atuais nas redes sociais. O espaço da escola precisa ser o espaço de construção de pessoas que precisam superar os entraves de uma 4ª Revolução Industrial, com os seus reptos, com a sua zona de incerteza, com a brusca queda de paradigmas. Não haverá emprego, nem estabilidade, mas a urgência na adaptação a novos cenários. As crianças e jovens precisam ser motivados a construir seu projeto de vida. E a aceitarem que a existência é uma dádiva generosa, plena de alegrias e de excelentes encontros. Com isso, o suicídio deixará de motivar novas tragédias. Mas quem está pensando seriamente nisso?

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, Docente da Pós-Graduação na UNINOVE e foi Secretário da Educação do Estado de São Paulo -2016-2018.

Foto: Divulgação

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