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Renato Nalini: Existe carne bovina ‘de baixo carbono’?

JOSÉ RENATO NALINI | 04/10/2018 | 07:00

É sabido que uma das atividades que mais impactam o meio ambiente é a pecuária. O Brasil chegou ao paroxismo de ter mais cabeças de gado do que população. À custa da devastação florestal destinada a pasto e futuramente convertida em deserto. Não é só isso. A ciência comprova que o gás metano expelido pelo gado vacum, seja pelo ruminar seja pela flatulência, é mais nocivo do que o CO2 emitido pela estupenda frota de veículos movidos a combustível fóssil. O Brasil continua na contramão dos países mais civilizados, onde a busca frenética por matrizes energéticas sustentáveis é para valer.

É óbvio que tais verdades são camufladas, ante o imenso interesse financeiro que envolve a pecuária. Em busca de se redimir, algumas empresas desenvolvem o marketing da “carne carbono neutro” ou “carne de baixo carbono”. Seria uma produção que neutraliza ou reduz a emissão de metano emitido pelos animais. Fico sempre hesitante em aceitar as boas notícias, desde a minha experiência na Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, na qual atuei desde a sua criação em 2005 até 2015. Ali verifiquei a dificuldade na tutela ecológica, nada obstante a explicitude edificante do artigo 225 da Constituição da República.

Algumas constatações: doutrinadores respeitados, quando contratados por infratores ambientais, renegam a obra ou a amoldam ao interesse do constituinte. As multas ambientais prescrevem, ante a incapacidade da Fazenda Pública exercitar o seu dever de executá-las no quinquênio. Estudos de entidades criadas para o desenvolvimento da ciência agrária pretendem provar que a vegetação canavieira é superior, em termos ecológicos, à da mata atlântica nativa.

Por isso é de se aferir se existe a possibilidade de produção de carne de “baixo carbono” ou se é mais uma tentativa de inibir a formação de uma consciência que passa a se importar com a crueldade perpetrada contra os animais de corte e com a prática instituída em nossa cultura de subtrair ao filhote animal o leite que a vaca produz para alimentá-lo.

Na verdade, o leite destinado ao filhote humano é o materno. O leite dos outros animais só existe para nutrir sua própria espécie.  Parecem ter razão os chineses quando comentam que cheiramos a leite. São hábitos consolidados, em relação aos quais não nos detemos e que merecem ao menos uma breve reflexão por parte de quem se considera a única espécie racional.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed. – RT-Thomson

JOSE RENATO NALINI


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