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Renato Nalini: Filosofia ajuda ou atrapalha?

JOSÉ RENATO NALINI | 15/11/2018 | 07:30

A implementação da disciplina Filosofia em vários níveis de ensino sempre se mostrou polêmica. Há o coro daqueles que entendem ser suficiente a carga das ciências sociais e humanistas no currículo e que a prioridade seria o ensino e o aprendizado das ciências exatas. Estas é que fazem o Brasil crescer, enquanto a elucubração esotérica de filosofia, sociologia, história e outros ramos do saber só fazem o País aprofundar o labirinto de suas convicções.

Outra parte da crítica foca o aparelhamento da disciplina por docentes ideologizados que pretendem “fazer a cabeça” do alunado e não torná-lo capaz de fazer, criticamente, suas próprias opções. Os profissionais da Filosofia, egressos dos cursos de Filosofia Pura, já sairiam “contaminados” por uma visão pré-fabricada nos “aparelhos” incrustados nas melhores universidades.

A experiência pessoal da Filosofia como disciplina do último semestre do Curso de Bacharelado me fez constatar o óbvio: os bacharelandos estão mais preocupados com a formatura, com o Exame da OAB, com o “sexto ano” do encontro com a realidade, do que em estudar o “amor pela sabedoria”. Isso me levou a escrever “Por que Filosofia?”, singela contribuição para fazer a juventude questionar se é adequada essa preocupação exclusiva com a técnica, uma tendência à beligerância processual e o total desprezo pela utópica observância espontânea do direito.

A ciência jurídica deve ser ferramenta de harmonização entre as pessoas, cada vez mais perplexas diante de uma realidade assustadora e desalentadas com o Estado Moderno, inábil para satisfazer todas as promessas e devedor insolvente da cidadania.

Filosofar é repensar tudo aquilo que importa realmente para um ser finito, cuja passagem pelo planeta se restringe a algumas décadas, não mais do que isso. É tentar responder por que nascemos, o que justifica estarmos no mundo, o que estamos fazendo para melhorá-lo ou para torna-lo menos acolhedor, menos solidário, menos fraterno.

Não é a “ciência tal, sem a qual, o mundo continua tal e qual” como ironizavam, provocativamente, pensadores peninsulares. Ao contrário, ajuda a suportar a carga cada vez mais pesada de vicissitudes, turbulências e decepções que o mero existir reserva a cada um de nós.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e autor de “Por que Filosofia?”, RT. Thomson-Reuters

Foto: Divulgação

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